A silenciosa virada tecnológica na Dataprev

*Dataprev encerra era do mainframe e consolida virada tecnológica histórica nos sistemas da Previdência

A conclusão da migração tecnológica anunciada neste domingo (1º) pela Dataprev marca um dos movimentos mais profundos de transformação digital já realizados na infraestrutura de tecnologia do Estado brasileiro. Ao encerrar definitivamente o uso do último computador de grande porte, o mainframe, e transferir os sistemas previdenciários para uma arquitetura moderna, distribuída e escalável, a estatal não apenas retomou os serviços do Meu INSS e da Central 135 nesta segunda-feira (2), como também simbolizou o fim de uma dependência tecnológica que se arrastava há décadas.

O comunicado conjunto da Dataprev com o Ministério da Previdência Social e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) informa que todas as funcionalidades voltaram a operar normalmente, com exceção do simulador de aposentadoria, previsto para ser reativado na quarta-feira (4). A retomada ocorre de forma gradual, com monitoramento técnico contínuo, diante do volume elevado de acessos esperado nos próximos dias.

Mais de 220 profissionais participaram da migração e homologação dos sistemas desde o fim de janeiro. O novo ambiente substitui a antiga plataforma centralizada por sistemas microprocessados capazes de operar em larga escala, com ganhos expressivos de desempenho, estabilidade e segurança. Um dos resultados mais visíveis foi a redução do tempo de processamento da folha de pagamento de benefícios de 96 para 48 horas.

Por trás dessa virada tecnológica, porém, existe uma longa disputa política, administrativa e até judicial para romper a dependência histórica dos mainframes da Unisys, que sustentavam sistemas críticos da Previdência em linguagens como Cobol e DMSII, hoje praticamente extintas no mercado global de tecnologia.

Ainda em 2009, a Dataprev assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público Federal para acabar com essa dependência tecnológica. À época, curiosamente, a empresa já era presidida por Rodrigo Assumpção, que voltou ao comando da estatal nos últimos anos e passou a conduzir novamente o processo de modernização.

O caminho, no entanto, foi marcado por impasses internos e decisões controversas. Durante o governo Bolsonaro, a Dataprev chegou a contratar a Accenture por cerca de R$ 50 milhões para realizar a chamada “transpilação”, processo de conversão dos códigos do mainframe para plataformas modernas. O serviço não foi executado, mas o pagamento foi realizado integralmente. O contrato acabou sendo encerrado de forma considerada “amigável” pela então direção da estatal, sem punições conhecidas, e com a Controladoria-Geral da União arquivando o episódio.

Somente agora a Dataprev conseguiu destravar de vez a migração, com a contratação da empresa 4Bears Informática, responsável por converter os sistemas legados para linguagens como Java e bancos de dados Oracle, rompendo definitivamente com o ambiente Unisys. O contrato, no valor de aproximadamente R$ 3,9 milhões, foi publicado recentemente no Diário Oficial da União.

O simbolismo político da mudança é grande. O centro de dados da Dataprev no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, que por anos abrigou o chamado “cebolão” da Unisys, chegou a receber visitas de autoridades do governo atual, incluindo a ministra da Gestão, Esther Dweck, ao lado de Rodrigo Assumpção e de dirigentes da área de governo digital. Ali eram processados os dados do CNIS, o Cadastro Nacional de Informações Sociais, além da folha de pagamento de praticamente 100% dos aposentados e pensionistas do Regime Geral da Previdência Social, cerca de 60 milhões de pessoas.

Além dos ganhos operacionais, a modernização fortalece uma agenda estratégica maior do governo federal, voltada à interoperabilidade de bases públicas de dados, ao combate a fraudes e à expansão dos serviços digitais. Plataformas modernas permitem integrar informações de diferentes órgãos, melhorar a verificação cadastral e acelerar políticas públicas, como ocorreu no pagamento do Auxílio Reconstrução no Rio Grande do Sul em 2024.

A migração também se conecta ao discurso político de transformação digital do Estado e à consolidação da Infraestrutura Nacional de Dados, vista como pilar para ampliar o acesso a direitos e modernizar a máquina pública. Aplicativos como Meu INSS, Carteira de Trabalho Digital e sistemas de programas sociais passam a depender cada vez mais dessa nova arquitetura tecnológica.

Na prática, o que a Dataprev encerra agora é um ciclo histórico da computação pública brasileira, marcado por tecnologias caras, fechadas e altamente dependentes de fornecedores específicos. A virada para plataformas abertas, distribuídas e escaláveis não é apenas técnica, mas também política: reduz amarras tecnológicas, amplia a autonomia do Estado e reposiciona a estatal como eixo central da transformação digital do setor social.

Depois de anos de disputas internas, contratos frustrados e pressões externas, a Dataprev finalmente conseguiu romper com o passado dos mainframes e inaugurar uma nova fase. Uma mudança que, além de histórica do ponto de vista tecnológico, tem peso estratégico no redesenho da governança digital do governo federal.