Serpro também estuda usar capacidade ociosa do data center da Telebras

O Serpro avançou em um plano estruturado de expansão de infraestrutura digital que combina novos investimentos próprios com o aproveitamento de ativos públicos já existentes. Segundo o presidente da estatal, Wilton Mota, além da implantação de um novo data center no polo de informática do Distrito Federal, a empresa federal de TI articula parceria com a Telebras para utilizar a capacidade ociosa de seu centro de dados (foto), ampliando a resiliência e a disponibilidade dos sistemas governamentais.

“Vejo uma aproximação cada vez maior entre nossas instituições. Eles nos ajudando a ampliar a capacidade de armazenamento de dados e nós, desenvolvendo sistemas capazes de gerar valor para o país, ampliar o acesso à informação e sustentar tecnologias emergentes, como a inteligência artificial”, disse Wilton Mota, referindo-se à importância da parceria entre Serpro e Telebras para ampliar infraestrutura pública de tecnologia.

A estratégia também reflete uma diretriz defendida publicamente pelo ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, que tem destacado a Telebras como um ativo estratégico da infraestrutura digital do Estado. Em declarações à imprensa especializada, o ministro afirmou que a estatal dispõe de capacidade excedente em seus data centers e que esses recursos podem ser utilizados por outros órgãos e empresas públicas para apoiar projetos de grande escala, como a reforma tributária e a expansão de serviços digitais do governo.

Segundo Siqueira Filho, a oferta dessa infraestrutura tem como objetivo evitar a duplicação de investimentos, acelerar a implantação de novos sistemas e dar maior racionalidade ao uso de ativos públicos. A Telebras, que já opera data centers próprios e uma rede nacional de telecomunicações, passou a ser vista pelo ministério como parte de uma engrenagem maior de infraestrutura pública, capaz de atender demandas de processamento, armazenamento e conectividade de forma integrada.

No caso do Serpro, o uso da capacidade da Telebras aparece como um movimento complementar à expansão física planejada em Brasília. A estatal confirmou que mantém negociações avançadas para implantar um novo data center no polo tecnológico do DF, em parceria com a Biotic, com expectativa de início das obras ainda no primeiro semestre. O projeto foi concebido para crescer de forma escalável, acompanhando a demanda, especialmente aquela gerada por aplicações de inteligência artificial e sistemas críticos do Estado.

Wilton Mota destaciu em entrevista ao blog, que os investimentos já em execução dão a dimensão desse esforço. Em 2025, o Serpro aplicou entre R$ 290 milhões e R$ 295 milhões em infraestrutura, com cerca de R$ 100 milhões destinados exclusivamente à segurança da informação. Além disso, a estatal estruturou parcerias de longo prazo para nuvem soberana, com um volume estimado de R$ 1,5 bilhão ao longo de sete anos, amortizado gradualmente.

Há ainda a aprovação da Comissão de Financiamentos Externos do Ministério do Planejamento, para o Serpro contrair empréstimo com o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (braço financeiro do Banco Mundial) no valor de até US$ 433 milhões. Esses recursos sustentam a base tecnológica que permitirá tanto a expansão do data center próprio quanto a integração com estruturas externas, como as da Telebras.

Na prática, utilizar a capacidade ociosa de um data center significa aproveitar espaços físicos, energia, refrigeração, conectividade e infraestrutura já instalados, mas que ainda não estão plenamente ocupados por equipamentos e cargas de processamento. Em vez de construir um novo prédio ou ampliar instalações do zero, o órgão contratante passa a operar servidores, sistemas ou ambientes virtuais dentro de uma estrutura existente.

Esse modelo traz impactos diretos sobre prazo e custo. A implantação tende a ser mais rápida, porque dispensa etapas longas de licenciamento, obras civis e comissionamento. Do ponto de vista financeiro, reduz o desembolso inicial e dilui investimentos ao longo do tempo, algo considerado estratégico em projetos de grande porte, como a reforma tributária.

Há também ganhos do ponto de vista de resiliência e continuidade de serviço. Ao operar em mais de uma estrutura física, o Serpro pode distribuir cargas críticas entre diferentes zonas, reduzindo o risco de interrupções e aumentando a disponibilidade dos sistemas. É essa lógica que sustenta a ideia de uma “terceira zona” de operação, complementar aos ambientes hoje concentrados em Brasília.

A convergência entre os planos do Serpro e a visão defendida pelo Ministério das Comunicações sinaliza uma mudança de abordagem na política de infraestrutura digital do governo federal. Em vez de cada órgão expandir isoladamente seus próprios data centers, a estratégia passa a priorizar integração, compartilhamento e uso racional de ativos públicos, preservando o controle estatal sobre dados sensíveis.

Nesse contexto, a Telebras deixa de ser apenas uma operadora de conectividade e passa a ocupar um papel mais amplo na arquitetura digital do Estado, enquanto o Serpro consolida sua posição como operador central de sistemas críticos. A combinação entre novos investimentos e reaproveitamento de capacidade existente indica que a expansão da infraestrutura pública não será pontual, mas parte de um redesenho estrutural para sustentar a próxima fase da digitalização do governo brasileiro.