Serpro quer pagar 1% de reajuste salarial, enquanto diretoria recebeu 15%

Como é bom ser presidente do Serpro ou integrante da diretoria da estatal. Não precisa se expor como políticos em eleições há cada quatro anos e nem prestar contas a um eleitorado. Tem um mandato garantido que não é contestado por ninguém e pouco sofre ação de controle interno ou externo dos atos que pratica na empresa. Isso explica como o salário fixo do presidente, Alexandre Amorim, conseguiu ter um reajuste de 15%, num país cuja inflação oficial em 2024 foi de 4,83%, segundo o IBGE. O salário fixo de Amorim é de R$ 51.430,39. Mas esse valor salta para R$ 67.816,42 se forem somados a outros benefícios concedidos ao executivo.

Já a sua diretoria teve um reajuste no salário fixo de 24,15% a passou a receber R$ 48.858,87. Mas com a soma de outros benefícios o valor acaba saltando para R$ 64.883,46. Esse aumento gerou revolta dentro da empresa, já que a diretoria vem se recusando a negociar com os sindicatos um novo Acordo Coletivo de Trabalho e está propondo ao funcionalismo um reajuste salarial de apenas 1% acima da inflação.

Em termos salariais, Amorim e sua diretoria passaram a ganhar salários este ano, que são maiores aos que são pagos para deputados e senadores: R$ 46.366,19 (bruto). Obviamente os parlamentares contam com verbas de gabinete (em torno de R$ 51 mil) que pode ajudá-los a complementar esses salários que recebem nominalmente. Não é permitido, mas volta e meia a imprensa denuncia políticos emitindo notas fiscais frias de gasolina ou de restaurantes para efeito de ressarcimento, de algo que não gastaram.

“Déficit”

Em carta divulgada internamente, a diretoria da estatal alegou que estaria apenas corrigindo uma defasagem na remunareção nominal da diretoria. “A medida visou reduzir o déficit acumulado ao longo dos anos, com base em estudo técnico comparativo”, informou. Segundo a nota oficial, entre 2008 e 2024 o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado foi de 158,9%. E deixou subentendido que o funcionalismo não tem do que reclamar, porque no mesmo período teve um reajuste salarial acumulado de 157,7% através dos Acordos Coletivos de Trabalho (ACT), praticamente equivalente à inflação.

“No caso do cargo de diretor, a atualização salarial não segue o mesmo padrão. Diferentemente das demais cargos de liderança da empresa, a remuneração vinculada a essa função não é reajustada anualmente nem está vinculada ao ACT. As revisões ocorrem por deliberação da empresa, com anuência das instâncias competentes. Considerando o período de 2008 a 2024, o reajuste aplicado ao salário nominal do cargo de diretor foi de 118,6%, resultando em um déficit de 40% em relação ao IPCA acumulado. A atualização de 15% aplicada em 2025 reduziu esse déficit para 25%”.

É curioso que somente agora, 16 anos depois, a diretoria do Serpro decidiu se preocupar e autoconceder um reajuste salarial de 15%, com o objetivo de corrigir parte de um déficit de 158,9%.

Lucro Líquido

Possivelmente a justificativa seria o fato da estatal ter conseguido um lucro líquido de R$ 685 milhões anunciado em seu balanço financeiro. Essa questão nunca foi objeto de preocupação dos demais gestores que antecederam Alexandre Amorim e também tiveram lucros. Mas nem por isso decidiram corrigir déficits nos seus pagamentos. (Glória Guimarães – 2018; Caio Paes de Andrade – 2019/2020; e Gileno Gurjão Barreto – 2021/2022).

A diretoria também ganha participação nos lucros da empresa e ele costuma ser alto, acima de R$ 100 mil, para cada diretor, de acordo com o lucro apurado no período e informado em balanço. Em 2024 o Serpro provisionou e pagou R$ 652.706,37 para a diretoria, só que nem todos os cargos estavam completos na época. E o presidente, quando acumula cargos, ainda recebe o correspondente ao período que cumpriu as funções de algum diretor ainda não nomeado. Desde 2023 a diretoria do Serpro não conseguia ser complementada e quem assumiu tais funções foi o presidente da estatal, Alexandre Amorim.

Benefícios

A empresa também paga um “Auxílio Moradia”, que é maior do que o valor que Congresso Nacional paga para deputados e senadores (respectivamente R$ 4.253/mês e R$ 5.500/mês) . O presidente da empresa, Alexandre Amorim, por exemplo, está recebendo R$ 6.138,32. Graças a um reajuste de 30% aprovado este ano, o auxílio dele deu um salto de R$ 1.416, 54 em relação ao valor que era pago até o ano passado (R$ 4.721,78). O benefício recebido por Amorim para se hospedar em Brasília também é pago no mesmo valor para os outros seis diretores da estatal.

Sem um acordo e num clima de guerra dentro da empresa com os funcionários, a diretoria serpriana dos 15% terá que lutar na Justiça do Trabalho contra a Fenadados e os sindicatos laborais para tentar impor a sua proposta de reajuste de 1% acima da inflação. Para um governo Liberal, mas com a bandeira do PT, nada mais normal do que a classe trabalhadora ter de ir buscar os seus direitos nas barras de um tribunal, não é mesmo?