
Evento será realizado de 4 a 6 de novembro, em Brasília, com participação presencial e online. Discussões incluem controle de dados, infraestrutura tecnológica, segurança e dependência de fornecedores internacionais.
A crescente utilização da inteligência artificial pelo setor público brasileiro tem colocado em discussão uma questão que vai além da modernização dos serviços digitais: até que ponto o governo mantém o controle sobre os dados, as tecnologias e os sistemas utilizados em suas operações? Esse será o principal tema da II Semana de IA Serpro 2026, marcada para os dias 4, 5 e 6 de novembro, em Brasília, com participação de representantes do governo, universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia.
Organizado pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), o encontro terá como tema “IA Soberana: Dados, Tecnologia e Poder de Decisão” e discutirá os desafios para reduzir a dependência tecnológica do setor público sem necessariamente abrir mão de soluções e fornecedores internacionais.
O debate ocorre em um momento em que a inteligência artificial começa a ocupar espaço em atividades administrativas, sistemas governamentais e processos de tomada de decisão. A expansão dessas tecnologias aumenta a necessidade de estabelecer regras sobre armazenamento e processamento de informações, segurança digital, transparência dos algoritmos e capacidade de fiscalização dos sistemas utilizados pelo Estado.
Um dos pontos centrais é a dependência de infraestruturas e modelos de inteligência artificial desenvolvidos e operados por empresas estrangeiras. Embora essas tecnologias possam acelerar a transformação digital, sua utilização também levanta questionamentos sobre a localização dos dados, as condições de acesso às informações e a continuidade dos serviços públicos em situações de interrupção contratual ou operacional.
Nesse cenário, a soberania tecnológica não está necessariamente relacionada à criação de sistemas inteiramente nacionais, mas à capacidade de o poder público estabelecer condições para contratar, fiscalizar, substituir e controlar as soluções utilizadas. Isso inclui conhecer o funcionamento dos modelos, identificar os critérios empregados na geração de resultados e garantir mecanismos de supervisão humana sobre decisões automatizadas.
A programação do primeiro dia, 4 de novembro, será dedicada às questões estratégicas relacionadas à inteligência artificial. Representantes do governo federal, da academia e da indústria de semicondutores discutirão a relação entre o domínio tecnológico e a capacidade de decisão do Estado. Também serão apresentados exemplos de utilização da tecnologia em governos estaduais e órgãos federais, além de análises sobre o mercado.
No segundo dia, 5 de novembro, as discussões estarão concentradas na infraestrutura necessária para desenvolver e operar sistemas de inteligência artificial. O uso de serviços em nuvem, a participação de fornecedores globais e os requisitos de segurança e controle sobre dados públicos estarão entre os assuntos abordados. A programação também prevê a apresentação de aplicações em sistemas federais de finanças públicas e plataformas de inteligência artificial generativa.
A relação entre autonomia tecnológica e empresas internacionais deverá ocupar parte importante dos debates. O desafio está em encontrar modelos de contratação e operação que permitam aproveitar a capacidade tecnológica de fornecedores globais sem comprometer o controle do governo sobre informações sensíveis, serviços essenciais e decisões administrativas.
O terceiro e último dia, 6 de novembro, será voltado às aplicações práticas da inteligência artificial. Entre os temas previstos está o uso da tecnologia pelo Judiciário no enfrentamento à violência contra a mulher. Outra discussão abordará a construção de uma infraestrutura nacional de inteligência artificial, com a participação de representantes das áreas de ciência e tecnologia, computação científica, energia e redes de pesquisa.
A articulação entre instituições públicas, universidades, centros de pesquisa e empresas é considerada uma das possibilidades para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver e operar tecnologias estratégicas. Entretanto, a construção dessa autonomia envolve desafios como investimentos em infraestrutura computacional, formação de profissionais especializados, disponibilidade de dados e acesso a equipamentos de processamento avançado.
Além das questões técnicas, a expansão da inteligência artificial no governo também exige mecanismos de governança capazes de definir responsabilidades sobre eventuais erros, decisões automatizadas e tratamento de informações pessoais. A adoção dessas ferramentas em serviços públicos torna especialmente relevante a possibilidade de auditar resultados, identificar falhas e assegurar que decisões com impacto sobre a população permaneçam sujeitas à fiscalização.
A II Semana de IA Serpro será realizada das 9h às 17h, na sede da empresa, localizada no SGAN Quadra 601, Módulo V, em Brasília, com transmissão pela internet.
A participação é gratuita, mediante inscrição, e haverá 100 vagas presenciais por dia, preenchidas por ordem de cadastro. Os interessados também poderão acompanhar as atividades pelo Microsoft Teams, com direito a certificado de participação. Outra possibilidade será assistir à transmissão aberta pelo YouTube, sem necessidade de inscrição, mas sem emissão de certificado.
As inscrições e a programação estão disponíveis no endereço campanhas.serpro.gov.br/semana-de-ia-serpro.
O encontro coloca em discussão uma questão que tende a ganhar importância à medida que a inteligência artificial avança na administração pública: como aproveitar tecnologias desenvolvidas globalmente e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade do Estado brasileiro de controlar seus dados, fiscalizar seus sistemas e tomar decisões sem dependência excessiva de fornecedores externos.




