Sem alterar o texto, Redata pode atrair data centers estrangeiros sem política industrial efetiva

Em entrevista ao blog Capital Digital e também durante sua apresentação no seminário Espaço Indústria – Onde o Brasil antecipa seu futuro, promovido pela Associação de Empresas de Desenvolvimento Tecnológico Nacional e Inovação, a P&D Brasil, o secretário de Ciência e Tecnologia para Transformação Digital, Henrique Miguel, deixou claro que o debate em torno do Redata está longe de ser apenas técnico e revela uma disputa sobre o próprio papel do Brasil na cadeia global de infraestrutura digital.

Segundo ele, “é importante que a indústria firme posição”. O secretário sinaliza, com isso, que o Redata tal como vem sendo estruturado, corre o risco de avançar sem uma diretriz industrial consistente. Trata-se de um alerta direto ao setor: sem articulação e pressão coordenada, o programa pode se consolidar apenas como um mecanismo de incentivo à instalação de data centers estrangeiros no país, ancorado em vantagens como energia disponível e benefícios fiscais, mas com impacto limitado sobre a indústria nacional.

Henrique Miguel entende que a capacidade industrial brasileira “é limitada”. O Brasil hoje não possui escala produtiva suficiente para atender à demanda dos grandes investidores globais. Ainda assim, o secretário do MCTI tenta reposicionar essa limitação como oportunidade, ao defender que o Redata seja integrado às políticas industriais já existentes (Lei de Informática, PPB, PADIS), de forma a viabilizar investimentos em pesquisa, desenvolvimento e fabricação local.

É nesse ponto que a fala avança para um terreno mais sensível. Ao destacar que multinacionais americanas, chinesas e taiwanesas enxergam no Brasil a possibilidade de fabricação e inserção na cadeia global, ele aponta para um modelo de industrialização que não necessariamente implica autonomia tecnológica. Na prática, essa inserção pode ocorrer por meio de operações de baixo valor agregado, como montagem local, uso de incentivos fiscais e exportação a partir de uma base instalada no país, sem transferência efetiva de tecnologia ou fortalecimento da indústria nacional.

A estratégia implícita é transformar o Redata em uma espécie de plataforma de atração de investimentos que, por efeito indireto, estimularia algum grau de produção local. No entanto, essa lógica esbarra no próprio desenho do projeto. Ao adotar critérios baseados em faturamento, em vez de capacidade instalada, o Redata abre espaço para que contrapartidas sejam cumpridas de forma contábil, sem necessariamente gerar expansão produtiva concreta no território nacional.

Além disso, o texto em discussão não estabelece mecanismos claros que condicionem os incentivos à realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil, nem impõe exigências robustas de conteúdo local ou de inserção efetiva da indústria brasileira nas cadeias globais de valor.

O resultado é uma contradição evidente. Enquanto o discurso apresentado por Henrique Miguel aponta para a necessidade de usar o Redata como instrumento de política industrial, o projeto, na forma como vem sendo conduzido, permite que o país se consolide apenas como uma plataforma de infraestrutura para operações globais de data centers, com baixa agregação de valor e reduzido impacto estrutural.

No limite, a fala funciona mais como uma tentativa de dar sentido estratégico a um instrumento ainda incompleto do que como uma descrição fiel de seus efeitos. E é justamente nessa distância entre intenção e desenho que reside o risco de o Brasil repetir um padrão recorrente: atrair grandes investimentos, ampliar a presença de empresas internacionais, mas permanecer fora das etapas mais estratégicas e rentáveis da economia digital.