
A Meta foi uma das grandes beneficiárias financeiras da eleição presidencial de 2026 e, ao mesmo tempo, protagonista de uma controvérsia que chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva declarou R$ 12,32 milhões em pagamentos diretos à dona do Facebook e Instagram para impulsionamento, mas enfrentou bloqueios e restrições que afetaram justamente sua publicidade nas plataformas.
Os dados mais recentes da prestação de contas mostram R$ 13,12 milhões em despesas de Lula classificadas como impulsionamento de conteúdos. Desse total, R$ 12,32 milhões foram pagos diretamente à Facebook Serviços Online do Brasil, empresa da Meta.
Flávio Bolsonaro investiu ainda mais. Sua campanha declarou R$ 20,925 milhões em impulsionamento, dos quais R$ 18,45 milhões foram pagos diretamente à Meta. A diferença entre os candidatos chega a R$ 7,805 milhões no total destinado a impulsionamento.
A controvérsia envolvendo Lula começou em 23 de setembro, quando sua conta utilizada para anunciar no Facebook foi desativada. A campanha recorreu e o serviço foi restabelecido. Posteriormente, a própria Meta reconheceu que o bloqueio havia ocorrido “por engano” por pouco mais de uma hora. Segundo a empresa, seus sistemas antifraude identificaram incorretamente um anúncio eleitoral como possível tentativa de se passar por um programa social do governo. (about.fb.com)
O problema se repetiu no segundo turno. Em 9 de outubro, o perfil de Lula no Instagram perdeu a possibilidade de transformar determinadas publicações do feed em anúncios impulsionados.
Mensagens internas da Meta obtidas pela Folha de S.Paulo mostraram funcionários discutindo as restrições impostas à conta de Lula e engenheiros nos Estados Unidos sendo acionados para resolver o problema. A campanha calculou que aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar anúncios em razão da restrição.
A Meta atribuiu o episódio a uma atualização de código que teria provocado uma falha global e afetado milhares de anunciantes. Os anúncios que já estavam no ar continuaram funcionando e a campanha ainda podia criar novas peças pelo gerenciador. A restrição atingiu uma modalidade específica de impulsionamento.
Naquele episódio, porém, a campanha de Flávio Bolsonaro não sofreu a mesma restrição e continuou conseguindo impulsionar publicações normalmente. O fato não comprova favorecimento ao candidato do PL, mas mostrou que a falha técnica teve efeitos diferentes sobre os dois adversários na disputa presidencial.
TSE obrigou Meta a repor impulsionamento
A campanha de Lula levou o caso ao TSE alegando tratamento desigual. Em 16 de outubro, o tribunal manteve decisão determinando que a Meta assegurasse tratamento isonômico às duas candidaturas. A decisão também estabeleceu que bloqueios de contas de anúncios deveriam passar por revisão humana ou ser revistos em até duas horas quando realizados automaticamente.
O ponto mais significativo diante dos milhões pagos pela campanha foi a determinação para que a Meta repusesse o impulsionamento contratado por Lula e que não havia sido entregue. O próprio TSE, entretanto, não concluiu que existisse manipulação deliberada da plataforma para favorecer Flávio ou prejudicar Lula. A decisão buscou assegurar igualdade de tratamento enquanto as reclamações eram apuradas. (tse.jus.br)
A Meta negou qualquer interferência política. Em manifestação pública, afirmou que “não está interferindo nas eleições brasileiras” e atribuiu os episódios a falhas técnicas, sistemas antifraude e problemas que também atingiram usuários em outros países. A companhia reconheceu, porém, o bloqueio equivocado da conta publicitária de Lula e outras falhas posteriormente corrigidas. (about.fb.com)
A controvérsia ganhou relevância adicional pelo tamanho do dinheiro eleitoral destinado à empresa. Lula pagou R$ 12,32 milhões diretamente à Meta e Flávio, R$ 18,45 milhões. Levantamento da Folha mostrava que, até 14 de outubro, a Facebook Serviços Online do Brasil já havia recebido R$ 282,4 milhões diretamente de candidaturas de todo o país. Outros R$ 99 milhões haviam passado pela DLocal para impulsionamento digital, parte destinado às plataformas da Meta.
O episódio expôs uma questão que vai além da disputa presidencial. Uma empresa privada estrangeira passou a concentrar parcela expressiva da infraestrutura utilizada para propaganda eleitoral digital no país. Ao mesmo tempo em que recebeu milhões de reais das campanhas para distribuir anúncios, seus sistemas automatizados tiveram capacidade para bloquear ou limitar o acesso de candidatos a esse serviço.
No caso de Lula, há um fato objetivo: a campanha pagou mais de R$ 12 milhões diretamente à Meta para ampliar seu alcance e, durante a eleição, enfrentou falhas e restrições reconhecidas pela própria empresa, a ponto de o TSE determinar a reposição do impulsionamento contratado e não entregue.
Não há prova de que a Meta tenha agido deliberadamente para prejudicar Lula ou favorecer Flávio Bolsonaro. Mas o episódio mostrou o grau de dependência das campanhas de uma plataforma que, além de receber milhões em dinheiro eleitoral, controla tecnicamente a distribuição da publicidade pela qual os candidatos estão pagando.
O caso, portanto, está longe de encerrado. Caberá agora ao TSE esclarecer se os bloqueios e restrições reconhecidos pela própria Meta foram apenas falhas técnicas ou produziram efeitos capazes de desequilibrar a disputa. A investigação toca em uma questão que vai além de Lula e Flávio Bolsonaro: até onde uma plataforma privada pode concentrar milhões de reais em publicidade eleitoral e, ao mesmo tempo, controlar os mecanismos capazes de ampliar, restringir ou interromper o alcance dessa mesma propaganda. Em uma eleição decidida também nas redes, um erro de algoritmo deixa de ser apenas um problema tecnológico quando pode significar milhões de eleitores alcançados ou excluídos da mensagem de um candidato.







