Setor financeiro enfrenta milhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2026, aponta estudo

O setor financeiro se consolidou como um dos principais alvos de ataques cibernéticos em 2026. Um levantamento da SonicWall revela que bancos, instituições de pagamento e outras organizações financeiras registraram a maior intensidade de tentativas de invasão por dispositivo entre todos os segmentos monitorados pela empresa. O volume foi mais que o dobro da média observada nos demais setores, evidenciando os desafios enfrentados por instituições que administram informações sensíveis e operações financeiras de grande valor.

Os dados fazem parte do Relatório de Proteção dos Serviços Financeiros de 2026, elaborado a partir de informações coletadas por uma rede global de mais de um milhão de sensores de segurança. A análise considera o primeiro semestre deste ano e identifica um cenário marcado pela persistência de vulnerabilidades antigas, pela atuação de grupos especializados em ransomware e pelo aumento da exposição de sistemas financeiros a ameaças digitais.

Segundo o levantamento, as instituições financeiras registraram 132.378 detecções de sistemas de prevenção de intrusões (IPS) por dispositivo durante os primeiros seis meses de 2026. O resultado representa a maior concentração de tentativas de exploração entre os setores avaliados e demonstra que os criminosos digitais direcionam esforços para ambientes nos quais uma invasão pode provocar prejuízos financeiros, vazamento de informações e interrupção de serviços essenciais.

A atratividade do setor está diretamente relacionada ao valor dos dados armazenados e à necessidade de funcionamento contínuo das operações. Além de movimentarem grandes quantias, as instituições financeiras mantêm informações pessoais, registros de transações e sistemas de pagamento que podem ser explorados por criminosos. A dependência de infraestruturas tecnológicas antigas amplia os riscos, especialmente quando atualizações de segurança exigem a paralisação de sistemas considerados críticos.

Entre os problemas identificados, a vulnerabilidade de estouro de buffer no servidor Telnet da GoodTech foi responsável por 42,2 milhões de eventos de detecção. O número chama a atenção para a permanência de tecnologias antigas em ambientes corporativos e para a possibilidade de exploração de serviços que continuam expostos, mesmo diante da existência de alternativas mais seguras.

Outra ameaça que permanece ativa é o Log4Shell, falha de segurança associada à biblioteca Log4j, amplamente utilizada em aplicações desenvolvidas em Java. Apesar de ter sido divulgada em 2021, a vulnerabilidade gerou 35,6 milhões de eventos de detecção no período analisado. A continuidade dessas tentativas mostra que sistemas sem as devidas correções ainda representam oportunidades para invasores, especialmente em plataformas bancárias e de processamento de pagamentos.

O estudo também identificou tentativas de exploração do Heartbleed, vulnerabilidade conhecida desde 2014 que afeta determinadas versões do OpenSSL. Mesmo após mais de uma década de sua descoberta, a falha continua aparecendo nos registros de monitoramento de segurança, reforçando a dificuldade de eliminar problemas antigos em infraestruturas complexas.

Além das vulnerabilidades em sistemas legados, o ransomware permanece entre as ameaças relevantes para o mercado financeiro. O relatório identificou dez famílias desse tipo de software malicioso com atividade direcionada ao setor, incluindo REvil, também conhecido como Sodinokibi, e Prometheus. Esses ataques podem comprometer a disponibilidade de sistemas e dados, interromper operações e criar condições para tentativas de extorsão.

A presença dessas ameaças preocupa especialmente instituições que dependem da disponibilidade constante de serviços digitais. Uma interrupção em plataformas de pagamento, sistemas de transferência ou serviços bancários pode atingir não apenas a organização afetada, mas também clientes, empresas parceiras e outros participantes do sistema financeiro.

O levantamento aponta ainda que a atividade de malware alcançou uma média de 39.341 ocorrências por firewall nas instituições financeiras monitoradas. Com esse resultado, o segmento ficou na segunda posição em intensidade de malware por dispositivo, atrás apenas da área da saúde.

Embora a inteligência artificial esteja contribuindo para tornar determinadas atividades criminosas mais rápidas e sofisticadas, parte expressiva das ameaças continua explorando problemas conhecidos. Sistemas desatualizados, credenciais comprometidas, configurações inadequadas e falhas de controle de acesso seguem entre os fatores que facilitam ataques cibernéticos.

Esse cenário evidencia uma dificuldade estrutural enfrentada pelo setor financeiro. Muitas instituições operam com aplicações desenvolvidas há anos, integradas a diferentes plataformas e responsáveis por atividades que não podem ser interrompidas facilmente. A necessidade de manter esses sistemas em funcionamento pode atrasar atualizações e ampliar a exposição a vulnerabilidades já documentadas.

Outro ponto de atenção envolve os modelos tradicionais de acesso remoto. Em determinadas arquiteturas, o comprometimento de uma credencial pode permitir que invasores alcancem diferentes recursos dentro de uma rede corporativa. Esse risco se torna ainda mais relevante em ambientes que dependem de fornecedores terceirizados, integrações com parceiros comerciais e equipes que trabalham remotamente.

Uma das abordagens utilizadas para reduzir essa exposição é o modelo de segurança Zero Trust, baseado no princípio de que nenhum usuário ou dispositivo deve receber confiança automática. Nesse formato, o acesso aos sistemas é concedido de maneira restrita, considerando fatores como identidade, condições de segurança do equipamento e necessidade de utilização de cada aplicação.

Diferentemente de modelos que permitem acesso mais amplo à rede após a autenticação, arquiteturas Zero Trust procuram limitar as permissões aos recursos necessários para cada atividade. Essa estratégia pode dificultar a movimentação lateral de invasores dentro dos ambientes corporativos e reduzir os possíveis impactos do comprometimento de contas. Sua eficácia, entretanto, depende de uma implementação adequada e da combinação com outras medidas de proteção.

Os resultados do levantamento também reforçam a importância da atualização contínua de sistemas, do gerenciamento de vulnerabilidades, da autenticação multifator e do monitoramento de atividades suspeitas. Em instituições que operam com tecnologias legadas, controles compensatórios podem ser necessários quando a substituição ou correção imediata de determinados componentes não é viável.

A quantidade de eventos identificados pelos sensores não significa, necessariamente, que todas as tentativas tenham resultado em invasões bem-sucedidas. Os registros representam atividades detectadas pelos mecanismos de segurança e ajudam a dimensionar a frequência com que determinadas vulnerabilidades são exploradas ou sondadas por agentes maliciosos.

O panorama apresentado para o primeiro semestre de 2026 mostra que a segurança digital do setor financeiro depende não apenas da capacidade de enfrentar novas técnicas de ataque, mas também da resolução de fragilidades acumuladas ao longo dos anos. Em um mercado cada vez mais conectado e dependente de serviços digitais, a permanência de vulnerabilidades conhecidas demonstra que a modernização da infraestrutura e o fortalecimento dos controles de acesso continuam sendo desafios centrais para a proteção das operações financeiras.