Letramento digital, literacia e IA: usar sem deixar de pensar

Por Atilio Augusto Segantin Braga*

A inteligência artificial deixou de ser assunto de especialistas há algum tempo. Talvez nem percebamos mais quantas atividades cotidianas já passam, de alguma forma, por ela. Hoje, utilizamos IA para escrever textos, pesquisar informações, analisar documentos, organizar tarefas e até apoiar decisões.

No ambiente profissional, essa presença é ainda mais evidente. A pergunta, portanto, não é mais se vamos conviver com inteligência artificial. Já convivemos. O desafio agora é outro: como utilizar essas ferramentas de maneira consciente, crítica e útil, sem transformar facilidade em dependência?

É nesse contexto que conceitos como letramento digital, literacia digital e, mais recentemente, literacia em inteligência artificial passam a ter uma importância muito maior do que simplesmente saber operar uma tecnologia.

Durante muito tempo, falar em inclusão digital significava saber utilizar um computador, navegar na internet, acessar serviços on-line ou utilizar aplicativos. Esse foi um passo importante, mas o ambiente digital mudou.

Uma pessoa pode utilizar dezenas de ferramentas diariamente e, ainda assim, ter dificuldades para identificar uma fraude, compreender como seus dados são utilizados ou avaliar se uma informação é confiável.

Com a inteligência artificial, esse problema ganha outra dimensão. Os sistemas atuais não apenas localizam informações: eles produzem respostas claras, organizadas e convincentes que podem transmitir uma segurança que nem sempre corresponde à qualidade do conteúdo apresentado.

É perceptível que esse talvez seja um dos pontos mais importantes da discussão atual: quanto melhor a tecnologia se comunica conosco, maior precisa ser a nossa capacidade de questioná-la. É justamente aí que entram os conceitos de literacia e letramento digital, que não são exatamente a mesma coisa, embora exista bastante sobreposição entre os conceitos.

A Unesco utiliza o conceito de digital literacy de maneira ampla, envolvendo a capacidade de acessar, compreender, avaliar, produzir e comunicar informações por meio das tecnologias digitais de forma segura e adequada.

No Brasil, o letramento digital costuma aparecer associado a uma dimensão mais social e contextual: compreender como a tecnologia se insere em nossas relações profissionais, econômicas e pessoais. Já a literacia digital aparece frequentemente relacionada às capacidades necessárias para acessar, compreender, avaliar e produzir informação em ambientes digitais.

Uma forma simples de compreender essa diferença de ênfase seria: “A literacia está fortemente relacionada às competências necessárias para compreender e utilizar o ambiente digital; o letramento acrescenta a capacidade de aplicar essas competências de maneira crítica e contextualizada na vida real.”

Os conceitos não competem. Complementam-se e conduzem a uma mesma questão: não basta saber usar tecnologia. É necessário compreender o que estamos fazendo com ela.

Com a IA generativa, demos mais um passo. Antes, pesquisávamos, comparávamos fontes e construíamos nossa compreensão. Agora, muitas vezes recebemos diretamente uma resposta pronta. Isso é mais rápido, mas cria um risco: quanto menor o esforço para obter uma resposta, maior pode ser a tentação de deixar de pesquisar, comparar, duvidar, interpretar e confirmar.

A IA pode realizar parte desse trabalho conosco. O problema começa quando permitimos que ela faça tudo isso por nós. Surge então uma nova competência: a literacia em inteligência artificial.

Compreender IA não significa dominar programação ou matemática avançada. Significa conhecer suficientemente esses sistemas para entender o que fazem, suas limitações, seus riscos e como avaliar aquilo que produzem.

A Unesco vem tratando essa competência sob uma perspectiva que envolve compreensão dos sistemas, pensamento crítico, ética, responsabilidade e uma abordagem centrada no ser humano.

Por isso, saber escrever um bom prompt é apenas uma pequena parte da questão. Antes dele, existe a capacidade de formular corretamente um problema. Depois da resposta, existe algo ainda mais importante: saber avaliar se aquilo que foi produzido faz sentido.

Dois profissionais podem utilizar a mesma ferramenta e receber respostas igualmente bem escritas. Aquele que domina o assunto terá melhores condições de identificar inconsistências, omissões e conclusões frágeis. A ferramenta é a mesma. A diferença continua estando no repertório humano do outro lado da tela.

Para quem deseja compreender melhor esse universo, uma iniciativa merece ser conhecida. A Universidade de Helsinque, na Finlândia, desenvolveu o curso Elements of AI, inicialmente em parceria com a empresa finlandesa Reaktor. Disponível gratuitamente em português, o curso foi pensado também para pessoas sem formação em ciência da computação e constitui um excelente ponto de partida para compreender os fundamentos da inteligência artificial.

A iniciativa é especialmente relevante porque aprender sobre IA não deve significar apenas aprender a utilizar ferramentas, mas compreender melhor aquilo que elas fazem.

Se pedi à IA que resumisse um documento, eu precisava conhecê-lo integralmente? Se ela construiu uma argumentação, compreendi realmente seus fundamentos? Se aceitei uma análise ou recomendação, conferi os dados e os critérios utilizados?

Não se trata de decidir se devemos ou não utilizar IA, mas de identificar o que vale a pena delegar e o que deveria permanecer conosco. Algumas atividades não produzem valor apenas pelo resultado. O processo também importa.

Ler nos permite perceber contradições e construir conclusões. Escrever frequentemente nos ajuda a descobrir o que pensamos. Pesquisar exige comparar fontes, avaliar evidências e reconhecer diferentes perspectivas.

Quando entregamos integralmente esses processos a uma máquina, ganhamos eficiência, mas podemos deixar de exercitar justamente as capacidades necessárias para avaliar a qualidade daquilo que ela produz.

Esse é o paradoxo: a tecnologia pode produzir respostas cada vez melhores enquanto seu usuário se torna cada vez mais dependente dela.

Talvez uma das competências mais sofisticadas dos próximos anos seja justamente saber quando não utilizar inteligência artificial. Nem toda atividade precisa ser automatizada, tampouco toda decisão deve ser delegada ou toda resposta precisa chegar imediatamente.

Em Blink – A decisão num piscar de olhos, Malcolm Gladwell mostra que decisões rápidas e intuitivas também podem ser eficazes quando apoiadas em experiência e na capacidade de reconhecer elementos relevantes de uma situação. Isso não significa que decidir rapidamente seja melhor do que refletir por mais tempo – ou vice-versa. São processos distintos, influenciados por contexto, experiência e cultura.

Existem decisões que exigem dúvida, responsabilidade, sensibilidade e julgamento humano. Utilizar IA de maneira madura não significa utilizá-la o tempo inteiro, mas saber onde ela efetivamente acrescenta valor.

A transformação provocada pela inteligência artificial vai muito além do ambiente profissional. Afeta educação, comunicação, privacidade, economia e nossa própria relação com a informação.

Por isso, educação para IA precisa começar antes do ensino do uso de ferramentas. Precisamos aprender a perguntar: Quem produziu esta informação? Qual é a fonte? Posso verificá-la? A IA pode estar errada? Existe algum viés? Quais dados estou fornecendo? Quem será responsável pela decisão? E, principalmente: Estou utilizando a tecnologia para ampliar minha capacidade ou simplesmente para evitar o esforço de pensar?

Talvez essas perguntas expressem melhor o significado de literacia em inteligência artificial. O avanço tecnológico continuará. Novos modelos surgirão e tarefas que hoje parecem complexas provavelmente serão automatizadas em poucos anos – ou meses.

Transformações dessa magnitude já ocorreram anteriormente. Durante a Revolução Industrial, James Watt desenvolveu importantes aperfeiçoamentos nas máquinas a vapor, aumentando significativamente sua eficiência e contribuindo para a expansão de seu uso industrial.

Se a máquina a vapor ampliou nossa capacidade de produzir força e movimentar máquinas, a inteligência artificial começa a ampliar — e, em determinadas situações, substituir — parcelas do trabalho cognitivo.

A diferença exige compreensão, educação e pensamento crítico, não medo ou deslumbramento. Nesse sentido, iniciativas como o Elements of AI, da Universidade de Helsinque, cumprem um papel importante: ajudam a compreender uma tecnologia que já faz parte de nossas vidas.

Talvez o maior aprendizado, porém, não esteja em descobrir tudo aquilo que a IA consegue fazer, mas em aprender a decidir o que vale a pena fazer com ela, o que precisamos conferir depois que ela faz e o que não queremos deixar de fazer nós mesmos.

A tecnologia continuará evoluindo. A questão que permanece conosco é outra: o que estamos fazendo com o tempo, com a atenção e com a capacidade intelectual que ela está nos devolvendo?

Se utilizarmos esse ganho para pensar melhor, aprender mais e tomar decisões mais conscientes, a inteligência artificial poderá ampliar nossas capacidades.

Mas, se a utilizarmos apenas para deixar de ler, pesquisar, escrever e refletir, talvez estejamos criando ferramentas cada vez mais inteligentes enquanto abrimos mão justamente daquilo que deveríamos fortalecer em nós mesmos. E talvez seja essa, no fim das contas, uma das questões mais importantes do nosso tempo.


* Atilio Augusto Segantin Braga, diretor e vice-presidente do Instituto Nacional de Proteção de Dados – INPD