SBI pretende avaliar 5 mil empresas e movimentar R$ 25 milhões com soluções de inteligência artificial

A adoção da inteligência artificial nas empresas brasileiras avança, mas transformar o uso da tecnologia em resultados financeiros e mudanças efetivas nos negócios ainda representa um desafio. Embora ferramentas de IA estejam cada vez mais acessíveis, muitas organizações continuam concentrando seus investimentos em iniciativas isoladas, sem uma estratégia capaz de integrar a tecnologia aos processos, produtos e modelos de negócio.

Nesse cenário, a Sociedade Brasileira de Inovação (SBI) desenvolveu duas ferramentas voltadas à análise da maturidade empresarial em inovação e inteligência artificial. A organização projeta alcançar 5 mil empresas e gerar aproximadamente R$ 25 milhões em receita nos primeiros dois anos de operação das soluções.

As ferramentas, denominadas Avaliação de Maturidade de Inovação e IA Sigma, foram desenvolvidas para identificar o nível de preparação das empresas para incorporar novas tecnologias de forma estratégica. A proposta é analisar não apenas a utilização de recursos tecnológicos, mas também as condições organizacionais necessárias para que os investimentos produzam resultados mensuráveis.

Um dos principais obstáculos enfrentados pelas empresas está na adoção de ferramentas antes mesmo da identificação dos problemas que precisam ser resolvidos. Essa abordagem pode levar à realização de treinamentos desconectados das necessidades do negócio, investimentos sem planejamento e projetos que não avançam além da fase experimental.

Segundo Helena Levorato, CEO e cofundadora da SBI, a pressão pela incorporação da inteligência artificial tem levado organizações a priorizar a tecnologia sem avaliar sua estrutura interna. Para a executiva, a ausência de um diagnóstico inicial pode resultar em iniciativas fragmentadas, dificultando a identificação dos benefícios obtidos e comprometendo o retorno dos investimentos.

Outro desafio está na utilização da IA exclusivamente para automatizar tarefas e reduzir custos operacionais. Embora essas aplicações possam proporcionar ganhos de produtividade, elas não representam necessariamente uma transformação estrutural nos negócios.

Na avaliação de Stefano Levorato, CIO e cofundador da SBI, o potencial da inteligência artificial vai além da otimização de atividades existentes. A tecnologia também pode ser utilizada para reformular produtos, desenvolver serviços, criar fontes de receita e viabilizar a atuação em mercados anteriormente inacessíveis.

A Avaliação de Maturidade de Inovação utiliza uma metodologia desenvolvida pela SBI a partir da análise de práticas de 100 empresas reconhecidas por suas iniciativas de inovação, incluindo Apple, Amazon e Microsoft, além de referências acadêmicas associadas a instituições como Harvard e MIT. O diagnóstico considera aspectos como estratégia, liderança, cultura organizacional, processos, qualificação profissional, recursos disponíveis e relacionamento com o ecossistema de inovação.

Já o IA Sigma concentra sua análise na utilização da inteligência artificial dentro das organizações. A ferramenta investiga se a tecnologia está integrada ao planejamento estratégico ou limitada a experimentações pontuais. Entre os critérios avaliados estão governança, segurança, gestão de dados, capacitação de profissionais, processos internos, aplicações comerciais e resultados alcançados.

A combinação das duas avaliações busca identificar dificuldades estruturais que podem comprometer a ampliação do uso da IA. Empresas com baixa maturidade em inovação, por exemplo, tendem a enfrentar maiores obstáculos para transformar projetos experimentais em aplicações permanentes, especialmente quando não possuem processos de decisão definidos, cultura de experimentação ou critérios claros para priorização de investimentos.

Esse cenário também levanta questões relacionadas à governança tecnológica. A implementação de inteligência artificial envolve decisões sobre segurança das informações, qualidade dos dados, responsabilidade pelo uso dos sistemas e capacitação das equipes. Sem uma estrutura adequada, a adoção dessas ferramentas pode ampliar problemas já existentes, como retrabalho, falta de integração entre departamentos e decisões baseadas em informações inconsistentes.

A análise individualizada proposta pela SBI considera as características e o estágio de desenvolvimento de cada organização. A partir do diagnóstico, a metodologia busca identificar limitações e orientar a definição de prioridades para os investimentos em inovação e inteligência artificial.

A iniciativa surge em um momento em que empresas de diferentes setores buscam ampliar o uso da IA, mas ainda enfrentam dificuldades para mensurar o retorno financeiro das aplicações. Nesse contexto, avaliar a maturidade tecnológica e organizacional pode ajudar a distinguir projetos com potencial de transformação de iniciativas que geram apenas ganhos pontuais de produtividade.

Com oito anos de atuação, a Sociedade Brasileira de Inovação informa ter desenvolvido uma rede com mais de 70 mil conexões, envolvendo empresas, startups, instituições de ensino, hubs de inovação, organizações públicas e profissionais ligados ao desenvolvimento de novos negócios. Essa estrutura deverá servir como um dos canais para a expansão das ferramentas no mercado brasileiro.

A meta de alcançar 5 mil empresas e movimentar R$ 25 milhões nos próximos dois anos, no entanto, ainda representa uma projeção da organização, e não resultados efetivamente alcançados. O desempenho das soluções dependerá da adesão das empresas e da capacidade dos diagnósticos de contribuir para decisões que produzam efeitos concretos sobre produtividade, eficiência operacional e geração de receitas.

A discussão evidencia uma mudança no debate corporativo sobre inteligência artificial: mais do que ampliar o número de ferramentas utilizadas, o desafio passa a ser estabelecer estratégias, processos e mecanismos de acompanhamento capazes de demonstrar como a tecnologia contribui para os resultados das organizações.