Brasil busca unir vizinhos diante da ofensiva dos EUA por minerais

Enquanto os Estados Unidos aceleram acordos bilaterais para assegurar cadeias de fornecimento de minerais críticos na América do Sul, o Brasil tenta construir uma resposta regional. Um acordo firmado entre o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) pretende identificar como Mercosul e Chile podem integrar reservas, produção, tecnologia e processamento mineral. O movimento, porém, começa quando alguns dos principais parceiros que Brasília pretende reunir já firmaram entendimentos próprios com Washington.

A diferença está também no estágio das duas estratégias. O movimento liderado pelo Brasil ainda vai estudar reservas, capacidades produtivas e possibilidades de integração. Os Estados Unidos combinam diplomacia, financiamento, contratos de compra e acordos diretamente com governos e projetos minerais latino-americanos. Sob o secretário de Estado Marco Rubio, essa ofensiva ganhou velocidade justamente quando uma mudança política em vários países da região aproximou seus governos de Washington.

O Acordo de Cooperação Técnica entre MME e CAF prevê até US$ 120 mil para contratação de consultorias especializadas. O valor é pequeno e não deve ser comparado diretamente com investimentos em mineração: trata-se de dinheiro destinado aos estudos que deverão orientar decisões posteriores.

O alcance do trabalho, porém, vai além de um levantamento geológico. O estudo deverá mapear o potencial mineral dos países participantes, consolidar informações sobre recursos, reservas e produção e analisar a demanda mundial por minerais estratégicos até 2050. Depois, deverá identificar oportunidades de cooperação tecnológica, produtiva e regulatória e elaborar uma carteira preliminar de projetos de integração regional.

Na prática, a proposta brasileira coloca sobre a mesa uma questão que atravessa a atual corrida pelos minerais críticos: não apenas onde estão lítio, cobre, grafita, níquel ou terras raras, mas quanto dessas cadeias poderá permanecer na América Latina, com processamento, transformação industrial e desenvolvimento tecnológico realizados dentro da própria região.

A iniciativa nasceu de uma articulação brasileira no Subgrupo de Trabalho nº 15 de Mineração e Geologia do Mercosul, que definiu como prioridade a realização de um estudo regional sobre minerais estratégicos. A intenção declarada é ampliar o conhecimento geológico, fortalecer a integração entre os países e construir estratégias comuns para o setor mineral.

O CAF deixa claro qual problema pretende enfrentar. Para o representante do banco no Brasil, Carlos Charme, a América Latina já ocupa posição estratégica como fornecedora dos minerais necessários à transição energética, mas precisa transformar essa vantagem em desenvolvimento, agregação de valor, tecnologia, investimentos e cadeias produtivas mais integradas.

Vizinhos alinhados

O desafio brasileiro é que parte dessa mesma região já está construindo relações bilaterais com os Estados Unidos. A Argentina é o exemplo mais evidente. Em 4 de fevereiro, durante a reunião ministerial sobre minerais críticos realizada em Washington, o governo de Javier Milei assinou com os Estados Unidos um marco bilateral para assegurar o fornecimento na mineração e no processamento de minerais críticos.

O acordo prevê cooperação para investimentos, mapeamento geológico e desenvolvimento das cadeias de suprimento. O instrumento entrou em vigor no próprio dia da assinatura. A aproximação mineral entre os dois países não começou com Rubio e atravessa administrações americanas, mas ganhou outra dimensão sob Donald Trump. Milei é um dos presidentes sul-americanos politicamente mais próximos do atual governo americano.

O Chile produz uma contradição ainda mais direta para a estratégia brasileira. É justamente um dos países que o acordo MME–CAF pretende incorporar à integração regional e, ao mesmo tempo, assinou em abril deste ano um memorando com Washington para fortalecer cadeias seguras e resilientes de mineração e processamento de minerais críticos e terras raras.

O acordo ocorreu já sob o governo de José Antonio Kast, que assumiu em março e estabeleceu uma relação politicamente mais próxima da administração Trump que seu antecessor, Gabriel Boric. Assim, o Chile poderá participar simultaneamente da construção de uma cadeia regional articulada pelo Brasil e de uma estratégia bilateral de segurança mineral com os Estados Unidos.

A Colômbia acrescentou neste mês outra peça ao movimento. Durante visita de Rubio ao país, o novo governo de Abelardo de la Espriella acertou entendimentos com Washington que incluem cooperação relacionada às cadeias de minerais críticos e terras raras. Também nesse caso houve uma mudança política importante em relação ao governo anterior de Gustavo Petro e uma aproximação com a administração americana.

No Peru, a história exige uma ressalva. O memorando de cooperação sobre minerais críticos com os Estados Unidos foi assinado em 2024, ainda durante a administração de Joe Biden. Portanto, não pode ser atribuído à ofensiva de Rubio. O que mudou foi o ambiente político: o atual governo de Keiko Fujimori sinalizou maior aproximação com Washington e considera os Estados Unidos parceiro estratégico.

O Equador também já participava, desde 2024, do fórum ligado à parceria internacional liderada pelos Estados Unidos para segurança mineral. Com Daniel Noboa, as relações com Washington se aprofundaram. Na Bolívia, o governo de Rodrigo Paz iniciou uma reaproximação econômica e diplomática com os Estados Unidos, embora não haja até agora confirmação de um acordo bilateral de minerais críticos equivalente aos assinados por Argentina ou Chile.

O quadro revela um ponto importante: seria excessivo atribuir os acordos minerais simplesmente à afinidade ideológica. A política americana de diversificar suas fontes de minerais críticos atravessou os governos Biden e Trump. Mas a ofensiva conduzida por Rubio encontra agora um ambiente político sul-americano particularmente favorável, com vários governos de direita ou centro-direita interessados em aprofundar relações econômicas e estratégicas com Washington.

Isso cria uma dificuldade adicional para Brasília. O Brasil tenta construir uma estratégia coletiva justamente quando alguns dos países que pretende reunir já negociam individualmente com a principal potência interessada em assegurar o acesso à produção mineral da região.

Duas estratégias

Marco Rubio tornou-se a face diplomática dessa ofensiva. Em fevereiro, comandou em Washington uma ministerial sobre minerais críticos com dezenas de países. A estratégia americana, entretanto, não depende da formação de um bloco latino-americano. Washington pode negociar país por país e, em determinados casos, chegar diretamente aos projetos considerados importantes para suas cadeias industriais e de defesa.

O Brasil oferece um exemplo dessa segunda possibilidade. A Serra Verde, em Goiás, única operação brasileira de terras raras em escala industrial, tornou-se um ativo relevante na estratégia americana de diversificação do fornecimento hoje fortemente dependente da China. A operação demonstra que os Estados Unidos não precisam necessariamente esperar um grande acordo bilateral com Brasília para construir posições na cadeia mineral brasileira. Financiamento, contratos de compra e relações com empresas podem produzir resultado semelhante.

Esse mecanismo é importante porque contratos de fornecimento de longo prazo podem direcionar antecipadamente parte da produção futura para determinadas cadeias industriais. Isso não significa que os minerais deixem de ser recursos da União nem que uma operação comercial transfira soberania sobre o subsolo. Significa que o destino econômico da produção pode ser contratado muitos anos antes de o minério ser extraído.

A própria composição da iniciativa MME–CAF mostra a complexidade dessa disputa. O Brasil pretende reunir Mercosul e Chile. Mas Argentina e Chile já possuem entendimentos minerais com Washington, enquanto o Paraguai mantém relações próximas com os Estados Unidos. A integração regional, portanto, não será construída entre países que tenham necessariamente a mesma estratégia geopolítica.

Esse talvez seja o principal desafio do acordo. Brasil e CAF procuram descobrir como combinar recursos e capacidades para formar uma cadeia regional. Os Estados Unidos procuram assegurar onde conseguirão os minerais necessários às suas próprias cadeias industriais, tecnológicas e militares. Os dois movimentos podem coexistir, mas também podem disputar a mesma produção futura.

Não há necessariamente conflito em receber investimento americano, chinês, europeu ou de qualquer outra origem. Capital estrangeiro pode financiar mineração, processamento e infraestrutura que os países latino-americanos dificilmente desenvolveriam na mesma velocidade apenas com recursos próprios. O problema aparece quando os contratos e investimentos consolidam a região predominantemente como fornecedora de minério, concentrados ou produtos de baixo processamento, enquanto separação, refino, fabricação de materiais avançados e produtos tecnológicos permanecem no exterior.

É justamente essa situação que o discurso do CAF pretende evitar. Há, porém, uma diferença de velocidade. O estudo financiado pelo banco ainda terá de ser executado e convertido em projetos. Depois será necessário construir consensos entre governos, escolher prioridades, encontrar investidores e colocar empreendimentos de pé.

Washington já dispõe de instrumentos diplomáticos, financeiros, comerciais e de defesa capazes de produzir compromissos concretos de fornecimento. Quanto mais contratos de longo prazo, financiamentos vinculados à produção e acordos bilaterais forem celebrados, menor poderá ser a parcela da produção futura disponível para sustentar uma cadeia industrial regional ainda em construção.

A questão não é impedir que minerais latino-americanos sejam vendidos aos Estados Unidos, à China ou à Europa. A disputa estratégica está em qual etapa da cadeia continuará na América Latina antes que esses minerais sejam exportados.

Se saírem predominantemente como minério ou concentrado, a região continuará ocupando sua posição histórica de fornecedora de recursos naturais. Se Brasil e seus vizinhos conseguirem compartilhar processamento, refino, pesquisa, tecnologia e produção de materiais avançados, a corrida internacional poderá servir de base para uma cadeia industrial sul-americana.

É essa escolha que dá dimensão geopolítica ao aparentemente modesto acordo de US$ 120 mil entre MME e CAF. O próprio governo brasileiro afirma que pretende olhar a mineração como uma estratégia regional, desenvolver potencialidades e fortalecer cadeias entre os países participantes.

O problema é que a América Latina começa a desenhar essa estratégia quando as grandes potências já disputam posições dentro dela. E, no caso americano, Rubio encontrou um cenário particularmente favorável: vários dos governos que o Brasil pretende aproximar em torno de uma estratégia regional também querem estreitar suas relações com Washington.

A pergunta que o estudo do CAF terá de responder, portanto, vai muito além de localizar jazidas: quanto da cadeia de minerais críticos a América Latina ainda conseguirá organizar para si enquanto seus próprios países fecham, individualmente, acordos com as potências que disputam esses recursos?