Diretor do Serpro vira elo com big techs em negócios estratégicos do governo

André Picoli Agatte chegou ao Serpro em 2023 para cuidar de relações institucionais, passou pela articulação da estatal com governos, parlamentares e prefeituras e, menos de dois anos depois, assumiu uma das principais diretorias comerciais da empresa. Desde então, suas viagens ajudam a revelar uma função que ganhou peso dentro do Serpro: aproximar a estatal de grandes fornecedores globais de tecnologia em projetos estratégicos do governo.

São agendas que passam pela AWS nos Estados Unidos, inteligência artificial na China, Salesforce no Brasil e, mais recentemente, Huawei, Ministério da Saúde e a infraestrutura digital do SUS. A trajetória aparece nas 56 viagens de Agatte registradas na base de Viagens, Diárias e Passagens do Serpro entre junho de 2023 e março de 2026. Juntas, elas somaram R$ 640,9 mil. Foram 14 viagens em 2023, ao custo de R$ 114,8 mil; 17 em 2024, por R$ 169,1 mil; 22 em 2025, por R$ 218,1 mil; e apenas três em 2026, que já alcançaram R$ 138,9 mil.

O dinheiro ajuda a dimensionar essa atividade, mas é o roteiro que conta a história. Agatte entrou no Serpro em abril de 2023 como Assessor de Natureza Especial da Presidência, durante a gestão de Alexandre Amorim. Seu currículo oficial informa que participou da regionalização dos negócios para estados e municípios, da identificação de novos ecossistemas de negócios e das relações institucionais da estatal com o Congresso Nacional e o governo federal.

As primeiras viagens refletem exatamente esse papel. Em junho de 2023, foi a São Paulo representar o presidente do Serpro no lançamento, na Assembleia Legislativa, da Frente Parlamentar pelo Desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação. No mês seguinte, percorreu Belém, Fortaleza, Recife e Salvador acompanhando a Presidência em visitas às regionais. Outros deslocamentos registram reuniões com parlamentares e autoridades estaduais e municipais. Em 2024 aparecem caravanas federativas, encontros com prefeituras e viagens cuja justificativa menciona expressamente a apresentação de produtos do Serpro e a “estratégia de regionalização” dos negócios. Antes de chegar formalmente à Diretoria, portanto, Agatte já circulava na fronteira entre relacionamento institucional e abertura de mercados para a estatal.

Sua chegada à principal área de negócios do Serpro foi precedida por uma articulação política relatada pelo Capital Digital desde fevereiro de 2024. Em 25 de fevereiro daquele ano, o blog revelou que Sinval Alan Ferreira da Silva, conhecido como “Alan Gatinho”, articulava a indicação de Agatte para uma diretoria da estatal. Sinval Alan é cunhado de Agatte e, naquele momento, integrava a equipe do então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Agatte já estava dentro do Serpro, trabalhando na assessoria do presidente Alexandre Amorim.

Quase um ano depois, em 4 de fevereiro de 2025, o Capital Digital informou que o nome de Agatte havia avançado pela Casa Civil e caminhava para aprovação no Serpro para uma diretoria. No dia seguinte, o blog publicou nova reportagem sobre a indicação, diante da informação que circulava nos bastidores de que Agatte havia presidido o PSD em Atibaia, São Paulo. A questão partidária chegou ao processo formal de elegibilidade.

Em 21 de fevereiro de 2025, o Comitê de Pessoas, Elegibilidade, Sucessão e Remuneração analisou a indicação de Agatte para Diretor de Negócios, Governos e Mercado. O extrato oficial da reunião registra que foram apresentados documentos adicionais para esclarecer sua situação partidária. Segundo a ata, o diretório partidário informou ter ocorrido erro no registro e declarou que Agatte não havia integrado o diretório nos anos de 2022, 2023 e 2024.

O mesmo documento contém uma ressalva que ganha relevância diante dos acontecimentos posteriores. O Comitê registrou que não realizou verificações específicas sobre a existência de parentes de terceiro grau do indicado em posições que pudessem configurar conflito de interesses com o Serpro e, nesse ponto, baseou-se na autodeclaração apresentada por Agatte de que não incidia nas vedações e impedimentos previstos na legislação e no estatuto da empresa. Isso não significa que o Comitê tenha identificado conflito de interesses ou qualquer irregularidade. Ao contrário, considerou Agatte elegível e deu parecer favorável à indicação.

Quatro dias depois, em 25 de fevereiro de 2025, o Conselho de Administração o elegeu Diretor de Negócios, Governos e Mercados, conforme registra o Rol de Responsáveis do Serpro. Agatte deixava a assessoria da Presidência para assumir uma das posições centrais na expansão comercial da empresa. Com a reorganização posterior da estrutura, passou a comandar a Diretoria de Novos Negócios e Inteligência de TI, a DINIT, posição registrada na estrutura de dirigentes do Serpro.

Big Techs

É justamente depois de sua chegada à Diretoria que suas viagens passam a mostrar com maior clareza a aproximação com grandes fornecedores globais. Entre 7 e 17 de abril de 2025, pouco mais de um mês depois de assumir o cargo, Agatte viajou aos Estados Unidos para participar do AWS Executive Briefing Center e do Executive Innovation Visit for Latam State-owned IT Enterprises. A missão custou R$ 57,3 mil.

Em julho, foi à China para a World Artificial Intelligence Conference 2025 e outros compromissos em Xangai e Pequim. A missão envolvia MCTI, MDIC e Ministério das Relações Exteriores e estava diretamente relacionada à inteligência artificial, uma das áreas em que o governo brasileiro passou a buscar capacidade tecnológica e infraestrutura. No Brasil, as agendas daquele ano registram ainda visita à Salesforce e reuniões com Magazine Luiza, Itaú, Prodesp, Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo e outras organizações públicas e privadas.

Cada uma dessas reuniões pode ser explicada pelas atribuições de uma diretoria de negócios. Examinadas em conjunto, entretanto, elas mostram como Agatte passou a ocupar uma posição de conexão entre o Serpro, potenciais clientes governamentais e grandes fornecedores privados de tecnologia.

É nesse contexto que aparece a Huawei. Em 11 de fevereiro de 2026, Agatte deixou Brasília para uma viagem de apenas um dia a São Paulo. A justificativa registrada pelo próprio Serpro foi: “Participar da reunião na Huawei sobre acompanhamento da missão do Ministro da Saúde na China.” O deslocamento custou R$ 6.868,30, dos quais R$ 6.463,23 em passagens, e o pedido foi registrado fora do prazo.

O documento não explica o significado exato de “acompanhamento” nem permite afirmar que Agatte tenha organizado a viagem do ministro Alexandre Padilha. Demonstra, porém, que um mês antes da missão o diretor de novos negócios do Serpro esteve na Huawei para uma reunião que a própria estatal relacionou à futura viagem do ministro da Saúde à China.

A conexão política acrescenta outra circunstância à cronologia. Sinval Alan, cunhado de Agatte e identificado pelo Capital Digital nas reportagens de 2024 e 2025 como articulador político de sua indicação para a Diretoria, acompanhou Padilha na mudança para o Ministério da Saúde e passou a comandar a Subsecretaria de Assuntos Administrativos da Secretaria-Executiva, conforme registra a página oficial da pasta.

A Subsecretaria de Assuntos Administrativos exerce funções de apoio administrativo às áreas finalísticas do Ministério e atua, entre outras atribuições, em atividades relacionadas às contratações. Não há, até agora, documento demonstrando que Sinval Alan tenha participado da organização da missão de Padilha, da reunião na Huawei, da escolha de qualquer fornecedor ou das decisões posteriores envolvendo a nuvem do SUS. O parentesco, portanto, não permite concluir que tenha ocorrido interferência, favorecimento ou conflito de interesses. Mas torna relevante esclarecer qual foi a participação de cada área do Ministério na preparação da missão.

Em março, Agatte embarcou para a China. Entre os dias 12 e 20, segundo a base do Serpro, participou de “Agenda com o Ministério da Saúde do Brasil na China” e do Huawei Cloud Compass 2026, em Shenzhen. A viagem custou R$ 79.169,06. Ele não foi o único representante da estatal. A ata da Diretoria Executiva de 25 de fevereiro autorizou também o afastamento de Alexandre Gonçalves de Ávila (Superintendente de Negócios com Clientes de Governo Digital ) e é ainda mais explícita sobre a finalidade da missão: “reunião com especialistas de saúde da Huawei e participação no COMPASS, na China”.

A agenda comandada por Padilha foi mais ampla e incluiu empresas, hospitais e instituições chinesas. Em Shenzhen aparecem Huawei, Mindray e Neusoft. Foram discutidos inteligência artificial, hospitais inteligentes, integração de dados clínicos, equipamentos, plataformas digitais, infraestrutura, conectividade e sistemas de nuvem. A UFRJ, que integrou a missão, informou que a delegação buscava conhecer tecnologias e modelos capazes de contribuir para a transformação da saúde brasileira.

Na reunião da Direx de 17 de março, Agatte informou ainda que o Serpro havia recebido durante o Huawei Cloud Compass o Joint Innovation Award – Data Intelligence, concedido durante o encontro de clientes e parceiros da companhia.

Há, porém, uma peculiaridade na composição conhecida da missão. Até agora, não foi identificado entre os participantes nenhum dos principais dirigentes da Secretaria de Informação e Saúde Digital, a SEIDIGI, do DataSUS ou do Departamento de Saúde Digital e Inovação, justamente as estruturas diretamente relacionadas à transformação digital, aos sistemas e às informações do SUS.

Naquele momento, Ana Estela Haddad comandava a SEIDIGI, Paula Xavier dos Santos dirigia o DataSUS e João Pedro Braga Félix estava à frente do Departamento de Saúde Digital e Inovação. As atribuições dessas unidades estão descritas na estrutura oficial da SEIDIGI. Nenhum desses dirigentes foi identificado até agora nos atos de afastamento e demais registros públicos localizados sobre a missão.

Isso não permite afirmar que a SEIDIGI ou o DataSUS não tenham participado. Técnicos ou outros servidores podem ter integrado a delegação sem aparecer nos documentos já encontrados. Mas deixa uma pergunta objetiva: numa viagem em que se discutiram inteligência artificial, nuvem, integração de informações e infraestrutura digital de saúde, quem representou tecnicamente essas áreas do ministério?

Do lado do Serpro não existe a mesma dúvida. Dois representantes da estatal foram formalmente autorizados e a própria Direx registra como finalidade da viagem a reunião com especialistas de saúde da Huawei.

Nuvem do SUS

Cinco meses depois, em agosto, Ministério da Saúde e Serpro anunciaram uma das maiores mudanças na infraestrutura digital do SUS. A Jornada para a Nuvem Soberana do SUS começou pela Rede Nacional de Dados em Saúde, a RNDS, e pelo CadSUS. A RNDS reúne mais de 5 bilhões de registros de saúde e o DataSUS estima ter cerca de 459 sistemas e soluções sob sua custódia.

O Serpro informou que suas equipes e as do DataSUS fariam o inventário das aplicações, a revisão da arquitetura existente e a definição da arquitetura-alvo para a migração progressiva dos sistemas. A infraestrutura escolhida é a Nuvem de Governo operada pela estatal, que não funciona com tecnologia de um único fornecedor. O próprio Serpro informa que dispõe de tecnologias homologadas de Huawei Cloud Stack, Google Distributed Cloud e AWS Outposts, com outras plataformas em processo de homologação.

A presença da Huawei nessa infraestrutura não nasceu depois da viagem de Agatte. A relação é anterior. Em outubro de 2024, a Diretoria do Serpro aprovou aditivo ao contrato com a Huawei para incorporar serviços Huawei Cloud à relação comercial existente. A Ata da 58ª Reunião Extraordinária da Direx registra valor estimado de R$ 182,7 milhões para 120 meses. A justificativa apresentada pela estatal era ampliar o conjunto de parceiros tecnológicos disponíveis para sua nuvem e reduzir riscos de dependência de um único fornecedor.

Esse antecedente é importante porque impede uma conclusão precipitada: a missão de março de 2026 não introduziu a Huawei na nuvem do Serpro. A empresa já fazia parte da estratégia tecnológica da estatal. Da mesma maneira, a documentação disponível não demonstra que as conversas realizadas na China tenham determinado a arquitetura posteriormente adotada para RNDS ou CadSUS.

O que os documentos permitem reconstruir é uma sequência mais ampla. Agatte entrou no Serpro em 2023 para trabalhar com relações institucionais e expansão dos negócios. Em fevereiro de 2024, o Capital Digital revelou a articulação política de seu cunhado, então ligado a Padilha, para levá-lo à Diretoria. Um ano depois, seu nome chegou ao Comitê de Elegibilidade, que registrou não ter realizado verificações específicas sobre parentes até terceiro grau em posições que pudessem configurar conflito de interesses, apoiando-se nesse ponto na autodeclaração do indicado. O colegiado não encontrou impedimento e aprovou sua elegibilidade.

Dias depois, Agatte assumiu a Diretoria de Negócios. A partir daí aparecem AWS nos Estados Unidos, inteligência artificial na China, Salesforce e outras empresas no Brasil. Em fevereiro de 2026, foi à Huawei para uma reunião relacionada ao acompanhamento da missão do ministro da Saúde. Em março, acompanhou a agenda da pasta na China e participou de reunião com especialistas de saúde da Huawei. Naquele momento, seu cunhado já estava na estrutura administrativa do Ministério comandado por Padilha. Cinco meses depois, Saúde e Serpro anunciaram a migração de RNDS e CadSUS para a nuvem da estatal.

Essa cronologia não demonstra que o parentesco tenha interferido na missão, que a Huawei tenha sido favorecida ou que as reuniões na China tenham definido a plataforma tecnológica do SUS. Mas os documentos colocam Agatte numa posição recorrente entre o Serpro, grandes fornecedores tecnológicos e projetos estratégicos do governo.

É essa posição que ainda precisa ser esclarecida. Qual foi o papel de Agatte e do Serpro na preparação da missão de Padilha? Quem solicitou a reunião realizada na Huawei em fevereiro? Sinval Alan participou da preparação administrativa da viagem ou de tratativas posteriores entre Saúde e Serpro? Quem representou a área de saúde digital do Ministério nas discussões tecnológicas na China? E qual tecnologia será efetivamente utilizada para hospedar RNDS, CadSUS e as demais cargas que migrarem para a Nuvem de Governo?

As 56 viagens de Agatte custaram R$ 640.897,45 ao Serpro. Mas o principal achado não está no valor. Está no caminho percorrido. Em menos de três anos, ele saiu da assessoria da Presidência encarregada da articulação institucional e regionalização dos negócios para comandar a Diretoria de Novos Negócios e Inteligência de TI. Nesse percurso, passou a aparecer em agendas com algumas das maiores empresas mundiais de tecnologia e em projetos que estão no centro da estratégia digital do governo.

As viagens ajudam a mostrar como esse papel foi construído. O que ainda falta saber é até onde vai essa ponte e como são tomadas, do outro lado dela, as decisões que podem definir fornecedores e tecnologias de algumas das infraestruturas digitais mais estratégicas do Estado brasileiro.