Sob pressão regulatória, fintechs associam expansão do setor ao crescimento do país

Em meio ao endurecimento das regras aplicadas às instituições financeiras digitais, empresas do setor passaram a sustentar que a expansão das fintechs não beneficiou apenas seus clientes, mas contribuiu diretamente para o crescimento da economia brasileira. A tese aparece em estudo encomendado pela Zetta, associação que reúne 35 empresas de tecnologia e serviços financeiros, segundo o qual essas instituições teriam acrescentado R$ 1,6 trilhão ao Produto Interno Bruto entre 2016 e o primeiro trimestre de 2026.

Produzido pelo Reglab, centro privado de pesquisa especializado em tecnologia e mídia, o levantamento chega ao debate quando as instituições digitais enfrentam aumento de impostos, exigências maiores de capital e novas restrições operacionais. Ao relacionar concorrência bancária, redução de juros e expansão do PIB, a pesquisa procura elevar o custo político de novas medidas que possam limitar a atuação do setor.

O argumento apresentado é que a regulamentação favorável à entrada de novos concorrentes, ao lado da criação do Pix, do Open Finance e das regras de portabilidade, permitiu às empresas digitais disputar clientes com bancos tradicionais, pressionando margens, tarifas e taxas de juros. Assim, eventuais barreiras ao crescimento dessas instituições não afetariam somente as fintechs, mas poderiam reduzir benefícios econômicos que, segundo o estudo, alcançaram famílias e empresas de todo o sistema.

O valor de R$ 1,6 trilhão não corresponde, contudo, a recursos contabilizados diretamente nas operações das empresas. É uma estimativa acumulada obtida por meio de um modelo econômico que compara a trajetória observada do país com um Brasil hipotético no qual as instituições digitais não teriam ampliado sua participação desde 2016.

O modelo utilizado, conhecido como “Equilíbrio Geral Estocástico Dinâmico” (ferramenta matemática usada para projetar como famílias, empresas, bancos e governo reagiriam a diferentes mudanças na economia ao longo do tempo), simulou os efeitos da concorrência financeira sobre crédito, tarifas, consumo e investimento. De acordo com o exercício, sem a expansão das instituições digitais, o PIB brasileiro teria sido 2,2% menor no primeiro trimestre de 2026.

O levantamento atribui às fintechs um diferencial acumulado de R$ 982 bilhões no consumo das famílias e de R$ 371 bilhões no investimento. Também estima que cidadãos e empresas economizaram R$ 102 bilhões em juros no crédito livre e R$ 47 bilhões em tarifas bancárias entre 2016 e 2026.

Para dar dimensão ao resultado, a divulgação compara os R$ 1,6 trilhão acumulados ao PIB anual de países como Chile e Colômbia. As medidas, entretanto, abrangem períodos diferentes: a estimativa brasileira soma efeitos produzidos durante aproximadamente uma década, enquanto a comparação utiliza tudo o que cada um desses países produz em um único ano.

Reação política

O estudo insere esses números numa discussão mais ampla sobre o futuro da regulação financeira. Desde setembro de 2025, uma sequência de decisões passou a ampliar os custos e as obrigações enfrentadas pelas fintechs. Entre elas estão o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, a elevação dos requisitos de capital mínimo, novas restrições operacionais e o fim das chamadas contas-bolsão, utilizadas para movimentar, em uma única conta, recursos pertencentes a diferentes clientes.

Cada uma dessas medidas possui justificativas próprias, relacionadas principalmente à segurança, à transparência das operações, à prevenção de fraudes e à estabilidade do sistema financeiro. Em conjunto, porém, elas são vistas pelas instituições digitais como o início de uma fase regulatória menos favorável à entrada e ao crescimento de novos competidores.

É nesse ambiente que a Zetta apresenta a expansão das fintechs não apenas como uma inovação tecnológica ou uma mudança no mercado bancário, mas como um componente da política econômica. A mensagem é que regras mais rígidas, se elevarem demasiadamente os custos de entrada e funcionamento, podem reduzir a concorrência, favorecer instituições já consolidadas e comprometer parte dos ganhos atribuídos ao setor.

“Os avanços dos últimos dez anos são resultado de escolhas regulatórias que apostaram na inovação e competição, como o Pix, o Open Finance e portabilidades”, afirmou o presidente da Zetta, Eduardo Lopes, durante o Zetta Summit, realizado em Brasília para o lançamento da pesquisa.

Segundo ele, o efeito da concorrência não ficou restrito aos consumidores que transferiram suas contas para bancos digitais. A entrada dos novos competidores teria levado as instituições tradicionais a rever tarifas e juros, espalhando o benefício pelo sistema.

O economista-chefe da associação, Ricardo Barboza, reforçou esse enquadramento ao afirmar que as políticas de estímulo à competição financeira possuem consequências macroeconômicas. Para ele, o crescimento acima das expectativas observado depois de 2020 não teria coincidido por acaso com a expansão das instituições digitais.

A relação, porém, não pode ser estabelecida apenas pela coincidência entre os dois movimentos. O desempenho da economia no período também foi influenciado por emprego, renda, transferências sociais, política fiscal, preços de commodities, exportações, inflação e variações da taxa básica de juros.

O próprio relatório técnico reconhece que seus resultados não foram obtidos por métodos diretos de inferência causal. Não houve um grupo de controle ou um “Brasil sem fintechs” que pudesse ser observado. A contribuição foi calculada pelo desligamento, dentro do modelo, dos canais atribuídos à atuação dessas instituições.

A versão analisada também não apresenta intervalos de incerteza para a estimativa de R$ 1,6 trilhão. Isso impede saber qual seria a faixa possível do resultado diante de mudanças nas premissas ou nos parâmetros utilizados.

Universo amplo

Outra questão está na definição das empresas consideradas digitais. O estudo não se restringiu às Sociedades de Crédito Direto e às Sociedades de Empréstimo entre Pessoas, categorias criadas especificamente para fintechs de crédito.

A classificação utilizada reúne instituições de pagamento, bancos digitais com licença bancária plena e todo o conjunto classificado pelo Banco Central como conglomerados e instituições independentes não bancárias. A lista inclui financeiras tradicionais, companhias hipotecárias, empresas de arrendamento mercantil, instituições vinculadas ao varejo e agências estaduais de fomento.

O relatório afirma que a exclusão das agências de fomento não alteraria substancialmente os resultados. Não apresenta, contudo, uma decomposição que permita verificar quanto do efeito permanece quando são consideradas somente as empresas efetivamente surgidas como fintechs.

Também há uma sobreposição entre a expansão das instituições privadas e as infraestruturas construídas pelo próprio Banco Central. O Pix, por exemplo, foi concebido, regulado e operado pela autoridade monetária. O Open Finance igualmente resulta de uma política pública que obrigou instituições a compartilhar dados mediante autorização dos clientes. O estudo coloca essas iniciativas dentro de uma mesma trajetória de abertura competitiva, mas não separa precisamente a contribuição de cada uma.

O diretor-executivo do Reglab, Pedro Henrique Ramos, afirmou que a transformação não se resume à substituição de agências por aplicativos. Segundo ele, as instituições digitais aumentaram a eficiência do sistema, ampliaram alternativas de crédito e pressionaram as margens dos bancos tradicionais.

A pesquisa foi financiada e encomendada pela Zetta. O relatório declara que os autores desenvolveram, conduziram e analisaram o trabalho de forma independente, sem interferência da associação na interpretação dos resultados.

Ainda assim, o estudo fornece ao setor um argumento político oportuno. Em vez de discutir novas exigências regulatórias apenas como aumento de custos para as empresas, as fintechs procuram apresentar a preservação de seu espaço competitivo como uma defesa do crescimento, da redução dos juros e do orçamento das famílias.

A disputa, a partir dessa perspectiva, deixa de ser somente entre reguladores, bancos e empresas digitais. O setor tenta demonstrar que restringir sua expansão poderá significar, no futuro, uma economia menos competitiva. A força dessa bandeira dependerá, porém, de o resultado de R$ 1,6 trilhão resistir à revisão independente das premissas, da classificação das instituições e dos mecanismos utilizados para atribuir às fintechs uma parcela tão expressiva do crescimento brasileiro.