
O Brasil tenta transformar sua ampla disponibilidade de minerais estratégicos em uma vantagem industrial, em um momento de crescimento da demanda internacional por matérias-primas utilizadas na transição energética, na eletrificação, na digitalização e em tecnologias de baixa emissão de carbono. O tema esteve no centro do Fórum “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, realizado nesta terça-feira (18), em Brasília, com representantes do governo, do setor financeiro e da indústria mineral.
Durante o encontro, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que o principal desafio está em fazer com que o país avance além da extração e exportação de recursos minerais. A estratégia discutida envolve ampliar o beneficiamento e o processamento no território nacional, além de estimular atividades industriais capazes de agregar valor a minerais como cobre, lítio e terras raras.
Essas matérias-primas ganharam importância nos últimos anos por sua utilização em baterias, veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia, equipamentos eletrônicos e diferentes tecnologias relacionadas à descarbonização da economia. Embora o Brasil disponha de reservas relevantes, ampliar sua participação nessas cadeias depende de investimentos em infraestrutura, tecnologia, conhecimento geológico e capacidade industrial.
O governo também trabalha na elaboração de instrumentos de planejamento de longo prazo para o setor. Segundo o secretário nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral substituto, Anderson Arruda, entre as iniciativas estão o Conselho Nacional de Política Mineral, o Plano Decenal de Recursos Minerais (PlanGeo) e o Plano Nacional de Mineração 2050. O Ministério de Minas e Energia também firmou acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para avaliar alternativas de financiamento destinadas ao mapeamento geológico.
A ampliação do conhecimento sobre o território é considerada uma das condições para orientar investimentos e políticas públicas. Dados geológicos mais detalhados permitem identificar áreas com potencial mineral e ajudam a reduzir incertezas na implantação de novos projetos. Ao mesmo tempo, representantes do setor defendem maior previsibilidade regulatória, especialmente diante da necessidade de investimentos de longo prazo.
Outra frente envolve a criação de mecanismos específicos para minerais críticos e estratégicos. Está em análise no Senado o Projeto de Lei nº 2.780/2024, que prevê a criação de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A discussão ocorre em meio à tentativa de diversos países de garantir o fornecimento de matérias-primas consideradas essenciais para setores industriais e tecnológicos.
No campo do financiamento, o BNDES mantém iniciativas voltadas à mineração e às etapas relacionadas à transformação mineral. Um fundo de investimento em participações estruturado em parceria com a Vale prevê R$ 2 bilhões para projetos do setor. Segundo informações apresentadas no fórum, uma chamada pública recebeu 56 propostas, representando demanda potencial de aproximadamente R$ 57 bilhões em investimentos e crédito. Do total, 12 projetos estão em estágio mais avançado de negociação e somam cerca de R$ 9 bilhões.
O minério de ferro de alto teor produzido no Brasil também aparece nesse cenário por sua possível utilização em processos siderúrgicos de menor intensidade de carbono. A tendência é que a competitividade do setor passe a depender cada vez mais não apenas da escala de produção, mas também da eficiência energética, das emissões associadas ao processo produtivo e do cumprimento de exigências ambientais.
A tentativa de ampliar a presença brasileira na cadeia dos minerais estratégicos, portanto, passa por uma combinação de exploração mineral, conhecimento geológico, financiamento, estabilidade regulatória e desenvolvimento industrial. O objetivo é reduzir a dependência de um modelo concentrado na exportação de matérias-primas e aumentar a participação do país em etapas de maior valor agregado, ao mesmo tempo em que questões ambientais e de sustentabilidade ganham peso na expansão do setor.







