Treze anos depois, Brasil refaz plano para terras raras e admite que ainda precisa construir os elos básicos da cadeia

O Brasil chega a 2026 com uma constatação incômoda no planejamento de terras raras: parte relevante do que o governo agora apresenta como prioridade para os próximos cinco anos já havia sido indicada pelo próprio Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, o CGEE, mais de uma década atrás. O novo estudo do órgão, elaborado por demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, não é uma simples atualização da publicação lançada em 2013. Ele refaz o diagnóstico, incorpora a nova disputa geopolítica pelos minerais críticos e avança na definição de uma estratégia industrial. Mas a comparação entre os dois documentos revela que várias tarefas consideradas urgentes em 2026 são semelhantes às que deveriam ter começado a ser executadas entre 2012 e 2020.

O caso mais evidente é o refino. O novo livro, “Terras Raras no Brasil – Estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026–2040”, afirma que o país ainda não dispõe, em 2026, de uma planta de separação de elementos de terras raras por extração por solventes em operação industrial. O Brasil acumulou conhecimento técnico em instituições como CETEM, IPEN, CDTN e USP, mas não transformou essa competência em capacidade produtiva. Sem essa etapa intermediária, o minério extraído no país não se converte automaticamente nos óxidos de alta pureza necessários à fabricação de ímãs, catalisadores, ligas, vidros e materiais ópticos.

O novo roteiro propõe, por isso, que entre 2026 e 2030 seja implantada a primeira planta industrial nacional de separação de terras raras, estruturada capacidade de refino de óxidos individuais de alta pureza, desenvolvida produção nacional de metais de terras raras e criada capacidade piloto para ligas magnéticas. O mesmo quadro prevê ainda uma planta piloto de ímãs de neodímio-ferro-boro até 2030.

O problema é que o estudo anterior já tratava a separação e a purificação como etapas necessárias da cadeia e propunha, desde 2013, linhas preferenciais de financiamento para pesquisa, desenvolvimento e inovação em prospecção, produção, separação e aplicações de terras raras. Também recomendava a criação de uma Rede Brasileira de Terras Raras e acordos internacionais para acesso a tecnologias.

A diferença é que, agora, o CGEE dá ao refino uma importância muito maior. O novo documento o classifica como um elo transversal que condiciona praticamente toda a estratégia industrial. Das cinco cadeias analisadas, quatro apresentam dependência crítica da separação e do refino. Apenas parte da indústria de catalisadores poderia avançar antes que esse elo estivesse integralmente estruturado. Segundo o estudo, sem refino nacional, qualquer tentativa de desenvolver a manufatura de produtos de maior valor agregado preservará a dependência de fornecedores estrangeiros, sobretudo da China, que concentra aproximadamente 90% da capacidade global de separação.

Essa mudança de enfoque talvez seja o principal elemento novo do trabalho de 2026. No planejamento anterior, o Brasil procurava simultaneamente estimular diferentes cadeias de aplicações. Agora, a conclusão é mais hierarquizada: antes de decidir em quais produtos finais o país pretende ganhar mercado, é preciso assegurar a capacidade de transformar concentrados minerais em óxidos separados com grau de pureza industrial. O documento chega a apontar prioridades. Lantânio e cério seriam direcionados inicialmente a catalisadores, polimento e vidros; praseodímio e neodímio, a ímãs permanentes e ligas magnéticas; térbio e disprósio, a ímãs de alta temperatura; e outros elementos a fósforos, óptica, saúde e aplicações especiais.

A repetição de prioridades aparece também no financiamento. Em 2013, o CGEE recomendava desburocratizar e criar mecanismos público-privados capazes de atrair empresas para as cadeias de ímãs, catalisadores, ligas, fósforos e aplicações em vidros. O prazo indicado para essa primeira frente era 2012 a 2014. Para outras cadeias, como cerâmicos, baterias e fibras ópticas, o objetivo era ampliar os mecanismos até 2020. BNDES, Finep, MCTI, MME, então MDIC, bancos privados e empresas estavam entre os atores apontados.

Em 2026, o financiamento volta ao roadmap como tarefa imediata. O novo estudo propõe uma linha específica do BNDES para minerais críticos e terras raras já em 2026 e a estruturação, em 2027, de um Fundo de Desenvolvimento da Cadeia de Terras Raras, envolvendo MCTI, BNDES, FNDCT e setor privado. Para a cadeia de catalisadores, por exemplo, o documento recomenda o lançamento em 2027 de uma linha do BNDES destinada especificamente a projetos de separação, refino e aplicação de terras raras.

A formação de pessoal apresenta trajetória semelhante. O estudo de 2013 propunha implantar bolsas de mestrado e doutorado, criar conteúdos específicos nos cursos de graduação e ensino médio, oferecer cursos de especialização e organizar programas de intercâmbio internacional para trazer especialistas estrangeiros. Todas essas iniciativas deveriam começar a partir de 2013.

No roteiro de 2026, a formação de especialistas reaparece como política a ser implantada entre 2026 e 2030, agora por MCTI, MEC, Capes, Senai e universidades. O novo documento também propõe a criação, em 2026, de uma Rede Nacional de Pesquisa em Terras Raras e o financiamento de projetos de pesquisa em separação, metais e ímãs ao longo dos próximos cinco anos.

Até o conhecimento geológico permanece como uma agenda em construção. O estudo anterior projetava que o mapeamento e o dimensionamento das ocorrências realizados entre 2012 e 2020 permitiriam confirmar reservas importantes e sustentariam a exploração no período seguinte. A expectativa para 2021–2030 era de um Brasil competitivo não apenas na produção mineral, mas também como fornecedor de ímãs, catalisadores, ligas metálicas, fósforos, materiais de polimento, vidros e lentes.

Em 2026, a ampliação do mapeamento geológico continua entre as prioridades da agenda nacional para 2026–2030. O próprio roadmap estabelece como uma das metas que a cobertura geológica da Amazônia chegue a 20% do território no fim da década.

O novo trabalho não esconde que parte importante da estrutura necessária ainda precisa ser criada. Na apresentação, o CGEE recorda que o estudo anterior foi uma das primeiras iniciativas brasileiras de caráter abrangente sobre terras raras e afirma expressamente que o documento de 2026 é “mais do que uma atualização”. A nova versão incorpora mineração, processamento, separação e refino, metalurgia, aplicações industriais, sustentabilidade, economia circular, política industrial, inovação e geopolítica.

São, portanto, dois livros diferentes. O primeiro, “Usos e aplicações de Terras Raras no Brasil: 2012–2030”, foi elaborado em um momento em que a preocupação internacional era fortemente influenciada pela concentração da produção chinesa e pelo temor de restrições de exportação. Ele trabalhava com 11 capítulos e estruturava o planejamento nacional em cenários, um roadmap geral e cinco cadeias industriais prioritárias.

O trabalho de 2026 amplia significativamente essa abordagem. Divide a estratégia em cadeia integrada, elos estruturantes e cadeias de aplicações. Mineração e refino ganham tratamento próprio. As cinco cadeias continuam, com ímãs permanentes, catalisadores, ligas metálicas e fósforos, enquanto a antiga categoria de pós para polimento, vidros e lentes evolui para um grupo mais abrangente de materiais para aplicações ópticas avançadas.

Outra diferença é que o ambiente internacional mudou. No primeiro estudo, a China aparecia essencialmente como uma potência dominante em produção e exportação. Agora, terras raras são apresentadas como ativos diretamente associados à segurança econômica, à defesa, à transformação digital, à mobilidade elétrica, à transição energética e à resiliência das cadeias de suprimento.

A comparação internacional passou a servir também como advertência. Ao examinar a experiência da Índia, o estudo de 2026 conclui que reservas minerais, sem cadeia de separação e sem instrumentos de proteção contra oscilações provocadas pelo domínio chinês, podem resultar simplesmente na exportação de concentrado de baixo valor agregado.

É justamente essa armadilha que o novo roadmap procura evitar no Brasil. O documento parte do princípio de que possuir jazidas já não é suficiente. A capacidade estratégica depende de mineração, concentração, separação, refino, metalurgia e manufatura funcionando como cadeia. A etapa de refino ganha especial importância porque converte o recurso mineral em insumo industrial. Em 2026, segundo o próprio CGEE, essa conexão ainda não existe em escala industrial no país.

A governança também muda. Em vez de apenas distribuir ações entre diferentes ministérios e instituições, o novo trabalho propõe níveis específicos de comando: uma instância estratégica, uma estrutura executiva interministerial e grupos temáticos permanentes. Para os próximos cinco anos, prevê a criação de um comitê nacional e de um Observatório Nacional de Terras Raras.

A proposta evidencia uma tentativa de corrigir uma das fragilidades que acompanharam o planejamento anterior: a dificuldade de transformar objetivos compartilhados por dezenas de órgãos e instituições em decisões coordenadas e execução industrial.

O roadmap de 2026 divide a estratégia em três períodos. Entre 2026 e 2030, o objetivo é estabelecer as bases institucionais e começar a ativar os primeiros elos. Entre 2031 e 2035, entram separação, refino, formação de pessoal, estruturação de capital e escalonamento industrial. Entre 2036 e 2040, a meta é consolidar as cadeias e conquistar participação internacional.

O contraste com as expectativas de treze anos atrás é significativo. O estudo anterior imaginava que no período 2021–2030 o Brasil já estaria em uma etapa de consolidação, com cadeias verticalizadas, novas joint ventures, exploração sustentável das reservas e posição competitiva na oferta de produtos finais. Em vez disso, o novo planejamento considera 2026–2030 justamente o período em que ainda deverão ser criadas as condições institucionais, tecnológicas, produtivas e financeiras básicas para transformar as reservas brasileiras em capacidade industrial.

O novo estudo traz, ao mesmo tempo, sinais de que a corrida se acelerou. Ele incorpora acontecimentos de 2026, incluindo mudanças no controle de projetos minerais, investimentos externos e acordos de fornecimento. Uma nota editorial registra, por exemplo, a aquisição da Mineração Serra Verde por uma empresa norte-americana por US$ 2,8 bilhões e um contrato de offtake de 15 anos relacionado à produção da primeira fase do projeto. O documento trata o episódio como evento capaz de alterar o posicionamento estratégico brasileiro.

A preocupação não é apenas com quem extrairá as terras raras brasileiras, mas com quem controlará os elos seguintes da cadeia e para onde irá a produção. O novo estudo sustenta que o Brasil pode permanecer como fornecedor de matéria-prima ou usar sua base mineral para construir capacidade de refino e indústria de maior valor agregado. A decisão, segundo o CGEE, precisa ser tomada agora.

Nesse sentido, o livro de 2026 representa um avanço em relação ao de 2013: define com maior clareza os gargalos, coloca o refino no centro da estratégia, estabelece responsabilidades, prazos, instrumentos financeiros e uma arquitetura de governança. Mas a comparação entre os dois estudos também produz uma conclusão menos confortável. Parte significativa dos instrumentos considerados essenciais para o futuro em 2026 já figurava no planejamento brasileiro mais de uma década atrás.

Linhas de financiamento, formação de especialistas, redes nacionais de pesquisa, cooperação internacional, infraestrutura tecnológica, mapeamento geológico e verticalização da cadeia aparecem nos dois momentos. Algumas ações mudaram de nome, outras ficaram mais específicas e várias ganharam novos responsáveis e prazos. O objetivo central, porém, permanece próximo daquele formulado no início da década passada: impedir que o país se limite a extrair um recurso estratégico e assegurar que uma parcela maior do valor gerado pelas terras raras permaneça no Brasil.

A diferença é que o prazo se encurtou. Em 2013, o horizonte era 2030. Agora, boa parte das condições básicas é novamente empurrada para o intervalo de 2026 a 2030, enquanto a consolidação industrial se desloca para 2040. A nova estratégia mostra, portanto, não apenas aquilo que o Brasil pretende construir, mas também a distância entre o futuro imaginado treze anos atrás e a cadeia produtiva que efetivamente chegou a 2026.

O novo estudo do CGEE foi elaborado por um grupo multidisciplinar de especialistas ligado principalmente ao CETEM, USP, UFSC e PUC-Rio. Entre os colaboradores e autores aparecem Maria Fátima Ludovico da Gama e Souza, da PUC-Rio; Fernando A. Freitas Lins, Ysrael Marrero Vera e Marcelo De Luccas Dourado, do CETEM/MCTI; Fernando José Gomes Landgraf, da Escola Politécnica da USP; e, pela UFSC, Paulo Antônio Pereira Wendhausen, Juliano Assis Baron Engerroff, Mariele Canal Bonfante, Jéssica Prats Raspini e Wagner Costa Macêdo Junior.

Um desses cientistas esteve diretamente na reunião convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre minerais críticos e terras raras, em julho de 2026: Fernando Landgraf, professor da Poli-USP e especialista em ímãs de terras raras. O encontro reuniu ainda os pesquisadores Alexandre Magno Rocha, do IFRN, Giorgio de Tomi, da Poli-USP, e Giorgio Romano Schutte, da UFABC. A presença de Landgraf – que também participou da elaboração da primeira versão – cria uma ligação direta entre o novo planejamento técnico do CGEE e a discussão levada ao presidente da República sobre como transformar as reservas brasileiras em uma cadeia industrial de maior valor agregado.