Educação e tecnologia em prol da tradição indígena

Por Flávio Santos*

Durante décadas, difundiu-se a ideia de que a cultura indígena só poderia ser mantida à distância do mundo protagonizado pelo avanço tecnológico. Neste imaginário, ao abraçar a tecnologia, essas etnias estariam renunciando a ser quem são. Mas identidade não depende de isolamento, depende da perpetuação, do reconhecimento e do respeito de saberes, crenças, cultura, língua, cosmologia
e ancestralidade.

Como diz o professor e escritor Daniel Munduruku, na sociedade indígena, “educar é arrancar de dentro para fora, fazer brotar os sonhos e, às vezes, rir do mistério da vida”. Assim, nas escolas de seus territórios, jovens estão se apropriando das novas ferramentas de comunicação para contar suas próprias histórias e manter vivos os conhecimentos ancestrais. A criação de arquivos culturais, com o registro das vivências em plataformas digitais, contribui para o fortalecimento de suas raízes e senso de pertencimento.

Esse movimento, no entanto, esbarra em desigualdades profundas. Embora o Censo de 2022 mostre que 54% da população indígena mora em áreas urbanas, muitas comunidades permanecem em regiões remotas, onde a conectividade enfrenta desafios logísticos e econômicos. Nessas áreas, a atuação do Estado é fundamental para promover a equidade.

Algumas iniciativas públicas vêm ganhando relevância. Entre elas, o projeto Aprender Conectado, um braço da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) – política coordenada pelo Ministério da Educação e pelo Ministério das Comunicações para garantir internet de alta velocidade em escolas públicas de todo o Brasil.

Executado pela Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (Eace), o Aprender Conectado desbrava o coração das florestas brasileiras para levar a internet de uso pedagógico às áreas mais remotas do país. O projeto acaba de atingir o marco de mil escolas indígenas conectadas, beneficiando 57.835 alunos, além de toda a comunidade do entorno. No Brasil, existem 3.541 unidades educacionais para atender aos povos originários.

O trabalho é desafiador. Levar infraestrutura a áreas de difícil acesso exige superar obstáculos consideráveis, desde contornar cachoeiras até percorrer quilômetros levando a fibra óptica em meio à densa vegetação. São necessárias soluções de engenharia complexas, às vezes recorrendo ao uso de satélites, de rádio e até de energia solar para que a internet seja instalada, mas cada escola conectada é um passo importante na redução de um descompasso histórico.

Para os professores, significa acesso a novas metodologias de ensino na língua originária. Para os estudantes, os benefícios vão desde a integração com outras etnias até a ampliação de oportunidades futuras.

Além dos resultados pedagógicos, outro importante aspecto da inclusão digital é o fato de as escolas indígenas se integrarem verdadeiramente à rede de ensino, inserindo os professores nos programas de atualização à distância, enviando informações sobre o desempenho dos alunos e informando os órgãos de governo sobre suas necessidades, podendo assim contribuir para o desenho de políticas públicas capazes de contemplar efetivamente suas demandas.

Mais do que levar a internet de alta qualidade às escolas isoladas, a tecnologia provida pela Eace garante a inclusão social e cidadania. Cada unidade de ensino conectada torna-se um ambiente de unidade e continuidade entre tradição e futuro.

*Flávio Santos é diretor-geral da Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (Eace), empresa que executa o programa Aprender Conectado.