
Por Magno Alves*
A integração tecnológica vem influenciando de maneira crescente a organização de processos e o uso da informação em diferentes campos da economia brasileira. No setor jurídico, esse movimento se reflete na adoção de sistemas capazes de estruturar dados, reduzir atividades manuais e oferecer maior previsibilidade às rotinas operacionais. Com isto, a tecnologia passa a cumprir um papel relevante na forma como informações jurídicas são analisadas, interpretadas e incorporadas às decisões das organizações.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial passou a ocupar um espaço permanente nas agendas de modernização das empresas como parte da estrutura operacional dos negócios. Sua aplicação tem se concentrado, sobretudo, na análise de grandes volumes de informação, no apoio à execução de tarefas recorrentes e na padronização de fluxos que antes dependiam exclusivamente de intervenção humana.
No setor jurídico, a incorporação de tecnologia ocorre em um ambiente marcado por aumento da complexidade regulatória, maior volume de informações e pressão constante por eficiência operacional. Departamentos jurídicos e escritórios passaram a lidar com demandas que exigem controle mais rigoroso de prazos, custos e riscos, ao mesmo tempo em que precisam garantir conformidade e qualidade técnica. Nesse cenário, a integração entre ferramentas digitais, bases de dados e processos internos tem se mostrado decisiva para sustentar a operação e ampliar a capacidade de entrega de valor às organizações.
Como a Inteligência Artificial está sendo usada em escritórios jurídicos
A adoção de IA no setor jurídico vem tornando a competitividade do mercado ainda mais assídua, sobretudo pela capacidade de organizar informações, reduzir retrabalho e dar maior previsibilidade às rotinas. À medida que essas ferramentas passam a ser incorporadas aos sistemas jurídicos, sua utilização passa a influenciar diretamente a maneira como atividades são distribuídas, acompanhadas e avaliadas ao longo do tempo.
De acordo com o levantamento Análise Advocacia 2026, que avaliou 723 escritórios atuantes na advocacia empresarial, 47% já incorporaram soluções de inteligência artificial em seus fluxos de trabalho. O dado indica um estágio de adoção ainda desigual, mas suficiente para demonstrar que a tecnologia começa a ocupar espaço relevante nas rotinas jurídicas, especialmente em organizações que lidam com grande volume de processos e informações.
Na prática, o uso da IA no ambiente jurídico tem se concentrado em atividades que exigem alto volume de leitura, organização e padronização de informações. Entre elas estão a gestão de pastas e processos, a elaboração de subsídios para peças iniciais e contestações, a revisão de documentos jurídicos e o apoio ao contencioso de massa. Ao assumir essas tarefas, os sistemas reduzem o tempo dedicado a rotinas repetitivas e contribuem para maior consistência na produção jurídica, sem interferir em decisões que envolvem interpretação ou estratégia.
Dentro desse processo, a automação tende a avançar prioritariamente sobre atividades que não envolvem decisões jurídicas sensíveis ou risco direto à estratégia processual. A padronização de documentos, o uso de assistentes virtuais voltados a dúvidas recorrentes, a criação de dashboards analíticos e a revisão automatizada de cláusulas contratuais são exemplos de aplicações já em curso.
Em um estágio mais estruturado, nos chamados Smart Contracts Jurídicos, aqueles com regras previamente definidas, permitem a execução automática de obrigações, como renovações e notificações, desde que submetidas a critérios claros de controle e validação. O efeito mais imediato dessas iniciativas é a redução de falhas operacionais e atrasos, além da redistribuição do tempo das equipes para atividades que exigem análise jurídica qualificada.
Outro movimento relevante diz respeito à integração dessas funcionalidades aos sistemas jurídicos já utilizados pelas organizações. Em vez de operar ferramentas isoladas, departamentos jurídicos passam a concentrar dados, documentos e fluxos de trabalho em plataformas únicas, o que reduz inconsistências e facilita o acompanhamento das atividades. Essa integração altera a forma como informações são consultadas, atualizadas e compartilhadas, criando condições mais estáveis para controle, rastreabilidade e tomada de decisão ao longo dos processos.
Jurimetria: como prever resultados processuais com dados
Diante do volume crescente de informações processuais e contratuais, a jurimetria passou a ocupar espaço relevante na gestão jurídica. Ao organizar dados históricos de decisões, valores envolvidos, prazos e desfechos, essa abordagem permite uma leitura mais estruturada do comportamento dos processos ao longo do tempo. Com isso, gestores conseguem avaliar probabilidades, identificar padrões recorrentes e embasar decisões com maior consistência, especialmente em carteiras de grande escala.
Ao longo dos últimos anos, a análise de dados no campo jurídico passou a incorporar métodos capazes de apoiar projeções financeiras e avaliações de risco. A aplicação de modelos baseados em IA que incluem técnicas de Processamento de Linguagem Natural (NLP) e Machine Learning permite lidar com grandes volumes de documentos e históricos processuais, oferecendo subsídios para estimar desembolsos, acompanhar tendências de decisões e identificar padrões relevantes dentro das carteiras jurídicas.
Com esse avanço, a gestão jurídica passa a ter impacto mais direto sobre a administração financeira das organizações. A leitura antecipada de cenários permite organizar provisões com maior previsibilidade e reduzir assimetrias entre risco jurídico e planejamento orçamentário. Nesse contexto, as informações produzidas pelo jurídico deixam de circular isoladamente e passam a dialogar com indicadores financeiros, como EBITDA, por exemplo, contribuindo para decisões mais alinhadas entre as áreas responsáveis por controle, desempenho e governança corporativa.
Segurança da informação jurídica: como proteger dados sensíveis
À medida que o uso de IA, automação e bases digitais se amplia no setor jurídico, a exposição a riscos relacionados à segurança da informação também cresce. A concentração de dados sensíveis em ambientes tecnológicos exige atenção permanente à proteção desses ativos, especialmente diante do aumento de tentativas de acesso indevido e do uso de ferramentas digitais por agentes mal-intencionados. Nesse contexto, a gestão da informação passa a ser uma dimensão crítica da atuação jurídica, com impacto direto sobre a continuidade das operações e a conformidade regulatória.
Segundo dados do relatório de cenário de ameaças da Fortinet, o Brasil registrou cerca de 315 milhões de tentativas de ataque em 2025, concentrando 84% das tentativas da América Latina, que sofreu 374 milhões, o que amplia o grau de atenção exigido das organizações. Assim, escritórios e departamentos jurídicos passam a concentrar grande parte dessa preocupação, uma vez que lidam diretamente com informações estratégicas e dados sensíveis.
Isso significa que o ambiente digital exige o reforço das medidas de proteção dos acessos aos dados que circulam nos departamentos das companhias e também entre empresas terceirizadas, considerando todo o fluxo tecnológico por onde informações e processos transitam.
Com isso, as empresas precisam manter atenção constante às novas formas de proteção da informação, o que inclui a adoção de certificações de segurança, como SOC 1 e SOC 2 Tipo 2, voltadas à gestão e ao controle da informação. Também é necessário assegurar conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que estabelece diretrizes para evitar a exposição ou o uso indevido de dados pessoais.
Governança de dados e ESG no departamento jurídico
O processo de reorganizar e realinhar pontos estratégicos que comportam os riscos de ameaças cibernéticas sofisticadas, tornam sistemas de governança importantes no processo de transição, desde o monitoramento ético da cadeia de suprimentos até a gestão rigorosa da privacidade de dados.
Assim, a segurança da informação e as certificações de conformidade, como a SOC 2, passam a integrar os critérios de confiança adotados pelo mercado. Nesse contexto, o jurídico assume a responsabilidade de assegurar que a informação circule com integridade entre departamentos internos e parceiros externos. A integração tecnológica aos sistemas de gestão contribui para organizar fluxos, reduzir retrabalho e dar visibilidade a atividades que antes permaneciam dispersas ao longo dos processos.
Desta maneira, as qualificações e garantias relacionadas à proteção de dados tendem a se consolidar como pré-requisitos para parcerias e fornecimento de tecnologia. Organizações preparadas para lidar com riscos e preservar a integridade das informações demonstram maior solidez operacional, enquanto o setor jurídico passa a atuar como elemento de apoio à governança e à organização financeira, especialmente em um ambiente de negócios marcado por maior complexidade e exigências regulatórias.
*Magno Alves é Diretor da vertical jurídica da Benner, empresa de tecnologia que oferece softwares de gestão empresarial e serviços de BPO para revolucionar e simplificar os negócios.






