Entre velocidade e solidez: o novo equilíbrio da inovação no setor financeiro

Por Caroline Capitani*

O setor financeiro brasileiro vive um momento de choque de realidade. Durante a última década, fomos ensinados a aplaudir o crescimento acelerado e a agilidade tecnológica como os únicos troféus que importavam. No entanto, com os juros altos e o rigor do Banco Central, ficou claro que a inovação sem uma gestão sólida compromete o futuro de qualquer instituição. Para equilibrar agilidade e segurança, a estratégia precisa ser centralizada no comando e descentralizada na execução. Isso significa ter regras rígidas de segurança e risco, mas permitir que as equipes de desenvolvimento tenham liberdade para criar produtos com rapidez.

Essa organização é vital no Brasil, onde o Banco Central elevou o patamar competitivo com o Pix e o Open Finance. Em um ecossistema tão sofisticado,  a agilidade sem governança deixa de ser um ativo para se tornar um risco sistêmico. Por isso, a resiliência deve nascer junto com o produto, e não ser “remendada” depois que ele já está no mercado. Nesse contexto, muitas fintechs que focaram apenas em ganhar clientes, operando com estruturas leves e foco em produtos de massa, enfrentam um novo desafio. O diferencial de uma instituição madura mudou: agora, o que conta é a capacidade de gerar lucro recorrente, manter reservas de dinheiro e financiar o próprio crescimento.

Nessa transição, o desafio é sair do modelo de um único produto de escala para se tornar uma plataforma sustentável. Afinal, um crescimento saudável é consequência de um modelo de negócio sólido, e não um substituto para ele. A competitividade do futuro será definida pela precisão estratégica e pela capacidade de unir inovação com estabilidade. Esse movimento já é impulsionado por tecnologias como a IA Agêntica, que permite que sistemas ajam de forma autônoma, cruzando dados internos com indicadores econômicos em tempo real para otimizar a liquidez e mitigar riscos preventivamente.

Contudo, a automação exige cautela. O uso de modelos padronizados por todo o setor pode gerar um efeito manada algorítmico, trazendo riscos à estabilidade do mercado. Para evitar essa homogeneidade perigosa, a tecnologia deve ser acompanhada por uma curadoria humana ativa. É essa camada de supervisão que fornece o filtro crítico necessário para validar as decisões das máquinas, garantindo que a inovação não elimine o ceticismo saudável, mas o utilize como um pilar fundamental de segurança e diferenciação estratégica. 

Na prática, para avaliar a saúde de um banco, existem indicadores públicos fundamentais como o Índice de Basileia, que mostra quanto capital próprio a instituição tem para enfrentar perdas. Quanto maior o índice, mais preparada ela está. Além disso, observar a consistência dos lucros e o nível de empréstimos não pagos ajuda a entender a real solidez do negócio. Para quem tem menos experiência, a regra de ouro é desconfiar de ofertas com retornos desproporcionais, pois elas geralmente escondem riscos elevados.

Em última análise, governança e gestão de risco não são barreiras para a inovação, são parte da estratégia. O segredo é envolver as áreas de conformidade desde o primeiro dia de criação de um produto, garantindo que cada novo serviço seja avaliado pela sua sustentabilidade e não apenas pelo potencial de marketing. O perfil vencedor deste novo ciclo será, invariavelmente, híbrido: instituições que conseguem unir a solidez e a confiança dos bancos tradicionais com a agilidade e a tecnologia das fintechs.

*Caroline Capitani é VP da vertical de banking na ilegra.