Carona paga na fama alheia

No embalo da missão lunar Artemis, da NASA, está sendo realizado desde o último dia 30 de março em Brasília a exposição “Universo Espacial: A Terra é Azul”, promovido pela Agência Espacial Brasileira (AEB). O evento visa celebrar os 20 anos da polêmica “Missão Centenário” que levou ao espaço o astronauta e hoje senador Marcos Pontes (PL-SP). A exposição somente terminará no dia 12 de abril. Os resultados desta “missão” – que na época teria custado em torno de U$ 10 milhões – até hoje são desconhecidos do ponto de vista científico e cercados de polêmica.

A própria comemoração de agora deixa margem para dúvidas sobre o real objetivo deste evento e quem pagou pela realização dele: o senador-astronauta? um empresário do ramo imobiliário? uma organização científica? ou a agência espacial brasileira?

A solenidade de abertura contou com o senador astronauta Marcos Pontes; o presidente da AEB, Marco Antonio Chamon (na foto segurando o microfone); o proprietário do Brasília Shopping, Paulo Octávio (lado esquerdo da foto); e o representante do Instituto Hardware BR, José Gontijo (lado direito) – uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT). Mais uma das já famosas organizações privadas “sem fins lucrativos” que vivem orbitando no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Publicidade

Não há informações sobre quanto foi gasto pelo governo para a realização de uma exposição que beneficia apenas a imagem do senador-astronauta, já que do ponto de vista científico não trouxe nenhuma novidade. Diferentemente de países que transformaram missões iniciais em programas permanentes de pesquisa orbital, o Brasil não estruturou, após a Missão Centenário, uma agenda consistente de experimentação em microgravidade.

Muitos dos estudos realizados não tiveram desdobramentos significativos, e a integração entre ciência, indústria e política espacial permaneceu limitada. Nesse contexto, o retorno tecnológico foi reduzido, com pouca conversão dos resultados em inovação ou aplicações comerciais. A Missão Centenário, portanto, deve ser compreendida como um ponto de partida e não como um programa consolidado. Seus ganhos científicos foram reais, especialmente na geração de conhecimento e na formação de pesquisadores, mas ficaram restritos pela falta de uma política de longo prazo capaz de transformar aquele primeiro voo em uma estratégia contínua de inserção do Brasil na economia espacial.

Retribuição

Neste caso, a exposição “Universo Espacial: A Terra é Azul” promovido pela AEB, não passou de um “mimo” com dinheiro público concedido ao senador, em reconhecimento ao apoio que ele vem prestando através de suas emendas parlamentares individuais no Congresso Nacional, direcionadas para o MCTI e a AEB no Orçamento Geral da União. Para o ano de 2026, Marcos Pontes destinou quatro emendas individuais num total de R$ 13,5 milhões para o ministério e também a agência espacial.

A AEB recebeu duas emendas individuais de Pontes. Uma, no valor de R$ 1,8 milhão foi para o custeio administrativo da agência. Já a segunda emenda, no valor de R$ 3 milhões, serviu para o “Desenvolvimento de missões e aplicações espaciais”. Depois da “Centenário”, nunca mais se falou de termos outro astronauta no espaço além de Marcos Pontes. Já para desenvolvimento de aplicações, existe uma possibilidade do dinheiro ter sido canalizado pela agência para a realização de alguns estudos na área do agro espacial. Ao assinar os Acordos Artemis em 2021, o Brasil tornou-se o primeiro país da América do Sul a integrar a iniciativa, assumindo compromissos com princípios de cooperação internacional e o uso pacífico do espaço e compartilhamento de dados. Mas sem garantir, na prática, presença direta nas operações mais estratégicas do programa.

A própria exposição realizada agora mostra que a AEB não tem uma política de longo prazo para o setor espacial brasileiro. O Plano Estratégico 2023–2026 da agência apresenta um diagnóstico correto sobre a importância geopolítica, econômica e tecnológica do setor espacial, reconhecendo o avanço das grandes potências e a crescente participação da iniciativa privada. No entanto, ao analisar o conteúdo do documento, fica evidente que ele se concentra mais na organização interna e na melhoria da governança institucional do que na construção efetiva de capacidade espacial que permita ao Brasil competir internacionalmente.

Omissões

A exposição inclusive omite fatos históricos, claramente por conta de viés político. Quem for ver a exposição, que termina no dia 12 de abril, irá se deparar com a informação de que a viagem ao espaço de Marcos Pontes somente ocorreu graças ao Governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1998.

Não foi bem assim. A AEB apenas informa – na exposição – que o edital para escolha do astronauta ocorreu no governo FHC em 1998, o que é fato, mas não explica que a efetiva viagem espacial de Marcos Pontes somente ocorreu entre 30 de março e 8 de abril de 2006, já no primeiro Governo Lula. Que decidiu pagar para levá-lo ao espaço para fazer pesquisas científicas de interesse do agronegócio.

A AEB claramente tratou de jogar para debaixo do tapete que o Governo FHC descumpriu um acordo com a NASA para Marcos Pontes pesquisar na estação espacial ISS. Nem citou esse episódio no texto informativo publicado na Internet. Vai direto ao contrato assinado com a agência russa. Esquece de informar que no acordo com a agência americana o Brasil se comprometeu de entregar alguns equipamentos de pesquisas espaciais e não cumpriu.

A saída no Governo Lula para evitar o mal-entendido foi Pontes viajar em um foguete russo, a nave Soyuz TMA-8, após o fechamento de um acordo de cooperação internacional firmado em 2005 com a agência espacial russa (Roscosmos). O custo para levar o astronauta brasileiro teria sido de U$ 10 milhões.

Apesar da polêmica, o Centro Espacial Kennedy, um dos principais centros da NASA, mantém um perfil do astronauta brasileiro em seu complexo de visitantes, reconhecendo a sua trajetória.