Brasil avança na adoção da IA, mas romper desigualdade dependerá do Estado

O avanço da inteligência artificial generativa no Brasil em 2025 revela um paradoxo cada vez mais evidente. O país conseguiu superar a média mundial de adoção da tecnologia, mas segue limitado pela baixa escala de uso estruturado no setor público, fator apontado pelo próprio debate internacional como decisivo para transformar adoção em ganhos econômicos e sociais duradouros. Segundo o relatório Global AI Adoption in 2025: A Widening Digital Divide, do Microsoft AI Economy Institute, 17,1% da população brasileira em idade ativa utilizou algum produto de IA generativa no segundo semestre de 2025, acima da média global de 16,3% e também do resultado médio do Sul Global, de 14,1%.

O crescimento brasileiro no período, de 1,5 ponto percentual em relação ao primeiro semestre do ano, foi superior ao avanço médio global e indica que a tecnologia já se dissemina entre empresas, profissionais e usuários individuais. Ainda assim, o relatório deixa claro que a simples difusão do uso não é suficiente para alterar a posição relativa dos países no cenário internacional. O estudo associa níveis mais elevados e sustentáveis de adoção à atuação direta do Estado, especialmente por meio da digitalização de serviços públicos, políticas de capacitação em larga escala e integração da IA às rotinas administrativas e educacionais.

No ranking internacional, o Brasil ocupa uma posição intermediária, atrás de países latino-americanos como Colômbia, Chile e Argentina, mas à frente de grande parte das economias emergentes. Essa colocação reflete um padrão de adoção puxado majoritariamente pelo setor privado e pelo uso individual de ferramentas de IA, sem que o poder público atue como grande indutor de escala. O relatório observa que países líderes na adoção, como Emirados Árabes Unidos e Singapura, alcançaram níveis muito superiores justamente por integrar a inteligência artificial aos serviços governamentais, ao sistema educacional e às políticas nacionais de transformação digital.

A comparação global reforça esse diagnóstico. Enquanto o Brasil e outros países do Sul Global avançam de forma gradual, o Norte Global amplia sua vantagem em ritmo mais acelerado. Nos países desenvolvidos, a taxa média de adoção subiu para 24,7% no fim de 2025, quase dez pontos percentuais acima do Sul Global. O relatório é direto ao afirmar que “a lacuna na adoção de IA entre o Norte e o Sul Global continua a se ampliar”, mesmo com a popularização da tecnologia em escala mundial.

Nesse contexto, a ausência de uma presença mais robusta do Estado brasileiro no uso da inteligência artificial surge como um fator limitante. O estudo aponta que governos que utilizam IA para ampliar eficiência administrativa, melhorar serviços ao cidadão e apoiar políticas públicas conseguem acelerar a difusão da tecnologia em toda a economia. Sem esse papel indutor, a adoção tende a permanecer fragmentada, concentrada em nichos e com impacto restrito sobre produtividade e inclusão.

O relatório também chama atenção para o papel do acesso como determinante da adoção, destacando o crescimento de modelos abertos e gratuitos em países do Sul Global. Embora isso contribua para ampliar o uso, o documento alerta para riscos associados à falta de governança, padrões e segurança. Para países como o Brasil, a mensagem implícita é que ampliar serviços públicos digitais baseados em IA não é apenas uma questão de eficiência, mas também de soberania tecnológica e coordenação institucional.

Ao final, o estudo sugere que o Brasil já superou a fase inicial de difusão da inteligência artificial, mas ainda não construiu as condições para um salto estrutural. Crescer junto com a média mundial não altera o desenho da desigualdade global apontada no relatório. Sem uma estratégia clara de incorporação da IA aos serviços públicos, o país tende a permanecer em uma posição intermediária, avançando em uso, mas distante dos países que transformaram a tecnologia em política de Estado e vetor central de desenvolvimento.

Em escala mundial, o relatório mostra que a adoção de inteligência artificial generativa já deixou de ser um fenômeno restrito a nichos tecnológicos, mas evolui de forma profundamente desigual entre países. Embora a média global tenha alcançado 16,3% da população em idade ativa no segundo semestre de 2025, os extremos do ranking revelam diferenças estruturais que vão muito além do simples acesso à tecnologia.

Líderes

No topo do ranking aparecem países que trataram a inteligência artificial como política de Estado, e não apenas como tendência de mercado. Os Emirados Árabes Unidos lideram com ampla vantagem, superando 60% de adoção, seguidos por economias altamente digitalizadas como Singapura e Coreia do Sul. Esses países combinam três fatores centrais apontados pelo relatório.

O primeiro é a presença ativa do Estado como usuário de IA. A tecnologia está integrada a serviços públicos, sistemas educacionais, plataformas de atendimento ao cidadão e processos administrativos. O governo atua como grande demandante, o que acelera a difusão da IA em toda a sociedade.

O segundo fator é o investimento contínuo em capacitação. Países líderes incorporaram IA a políticas de qualificação profissional, educação básica e treinamento corporativo, reduzindo barreiras culturais e técnicas ao uso da tecnologia. O relatório destaca que, nesses países, a IA não é percebida como ferramenta especializada, mas como parte do cotidiano de trabalho e estudo.

O terceiro elemento é a infraestrutura digital madura, com alta conectividade, ampla disponibilidade de serviços em nuvem e forte integração entre plataformas públicas e privadas. Esse ambiente permite que novos produtos de IA sejam rapidamente adotados por milhões de usuários.

O estudo resume esse padrão ao afirmar que países líderes “alcançaram níveis elevados de adoção ao integrar a inteligência artificial às funções centrais do Estado, da economia e da educação”.

Bloco intermediário

Um grupo numeroso de países, onde se enquadram várias economias emergentes e também o Brasil, ocupa uma faixa intermediária de adoção, geralmente entre 15% e 25%. Nesse bloco, a IA cresce impulsionada principalmente pelo uso individual e corporativo, com menor protagonismo do setor público.

Esses países tendem a apresentar bons níveis de conectividade urbana e ecossistemas digitais ativos, mas ainda carecem de escala governamental. O relatório sugere que, sem o Estado atuando como indutor, a adoção permanece fragmentada, concentrada em setores específicos e com impacto limitado sobre produtividade sistêmica.

É nesse ponto que o documento aponta o risco de estagnação relativa. Mesmo com crescimento contínuo, países do bloco intermediário avançam em ritmo inferior ao dos líderes, o que faz com que a distância global continue aumentando.

Na lanterna

Na outra ponta do ranking estão países com taxas de adoção abaixo de 5%, concentrados sobretudo em partes da África, Ásia Central e regiões com baixa renda per capita. O relatório associa essa posição a uma combinação de fatores estruturais.

O principal deles é a baixa penetração de internet e dispositivos digitais, que limita o acesso básico às ferramentas de IA. Soma-se a isso a ausência de serviços públicos digitalizados e a quase inexistência de políticas nacionais de capacitação em tecnologia.

Outro ponto destacado é a dependência de plataformas externas, muitas vezes acessadas de forma irregular ou instável. Nesses países, a IA aparece mais como curiosidade ou experimento isolado do que como instrumento integrado à vida econômica e social.

O relatório observa que, mesmo com a expansão de modelos gratuitos e open source, esses países enfrentam dificuldades para transformar acesso pontual em adoção consistente. “Sem infraestrutura, capacitação e coordenação institucional, a difusão da IA tende a permanecer limitada”, afirma o estudo.

Desigualdade como tendência estrutural

O ponto central do relatório não é apenas quem está na frente ou atrás, mas a constatação de que a diferença entre os líderes e os retardatários está aumentando. Enquanto o Norte Global cresce mais rápido e consolida ganhos, o Sul Global avança em ritmo insuficiente para fechar o fosso.

A análise é clara ao indicar que a inteligência artificial, se deixada apenas à lógica de mercado, tende a reproduzir e aprofundar desigualdades existentes. Países com Estados digitais fortes aceleram; países sem essa base ficam presos a um crescimento lento e disperso.

No plano mundial, o relatório deixa uma mensagem inequívoca. A disputa em torno da IA não se resume a quem tem os melhores modelos ou maior capacidade computacional, mas a quem consegue transformar tecnologia em serviço público, política educacional e infraestrutura social. É esse fator que explica por que alguns países lideram com folga, enquanto outros seguem na lanterna, mesmo em um cenário de rápida difusão global da inteligência artificial.