
Working paper da WIPO/Comissão Europeia, mostra que reduzir barreiras de acesso ao conhecimento científico aumenta a participação feminina na ciência, especialmente em países em desenvolvimento. O acesso digital não é neutro: ele redistribui oportunidades, corrige vieses estruturais e fortalece a base de capital humano feminino na pesquisa.
Um estudo internacional coordenado pelos pesquisadores ligados à Organização Mundial da Propriedade Intelectual e à Comissão Europeia – Elodie Carpentier, Alexander Cuntz, Alessio Muscarnera e Julio Raffo – reforça uma tese cada vez mais sensível para o debate global sobre ciência, inovação e desenvolvimento: políticas de acesso ao conhecimento científico não são neutras e podem funcionar como instrumentos efetivos de redução das desigualdades de gênero na academia, especialmente em países em desenvolvimento.
O trabalho analisa os efeitos do programa Hinari, iniciativa da Organização Mundial da Saúde que oferece acesso gratuito ou de baixo custo a periódicos e livros científicos na área de saúde para instituições de países de baixa e média renda. A conclusão é direta: ampliar o acesso digital à literatura científica aumenta a participação de mulheres na produção acadêmica, eleva sua presença entre autores e tem impacto positivo, ainda que mais moderado, sobre a qualidade das publicações.
A pesquisa examinou dados de mais de 600 instituições em 80 países ao longo de quase duas décadas, cruzando informações bibliométricas, afiliações institucionais e indicadores educacionais de gênero. Ao comparar áreas cobertas pelo Hinari com áreas não cobertas, antes e depois da adesão ao programa, os autores identificaram um crescimento consistente da presença feminina na ciência local. Em alguns cenários, a proporção de artigos com participação de mulheres cresce até 30%, enquanto a participação feminina entre autores aumenta entre 2% e 9%.
No contexto brasileiro, os achados do estudo dialogam diretamente com a política de acesso ao conhecimento científico estruturada em torno da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e do Portal de Periódicos da Capes, que há duas décadas funcionam como principal infraestrutura pública de acesso à literatura científica no país.
Assim como o Hinari nos países de baixa e média renda, o Portal opera como um mecanismo de equalização de oportunidades dentro do sistema científico nacional, ao reduzir a dependência de recursos institucionais próprios e ampliar o acesso de pesquisadores de universidades periféricas e regiões menos favorecidas.
De acordo com o estudo, cortes orçamentários, restrições de acesso ou descontinuidade dessas bases não representam apenas um problema administrativo ou financeiro, mas tendem a aprofundar desigualdades estruturais, inclusive de gênero, ao restringir o acesso ao conhecimento codificado. Por outro lado, iniciativas de ciência aberta, repositórios institucionais e políticas de acesso público a resultados de pesquisa financiada com recursos públicos reforçam o papel do Estado como indutor de inclusão, diversidade e soberania científica, ao ampliar a participação de mulheres e outros grupos sub-representados na produção científica brasileira.
Mais relevante do que os percentuais médios é o padrão estrutural identificado. Os efeitos do acesso ao conhecimento são mais fortes justamente nos países onde as desigualdades educacionais de gênero são maiores. Isso sugere que o acesso à literatura científica funciona como um mecanismo de compensação parcial das perdas ao longo do chamado “leaky pipeline”, o processo de evasão progressiva de mulheres ao longo da formação acadêmica e da carreira científica.
O estudo sustenta que mulheres tendem a ser mais afetadas por restrições de mobilidade, menor acesso a redes informais de colaboração e vieses institucionais ainda presentes no sistema acadêmico. Nesse contexto, o acesso digital, remoto e relativamente anônimo à produção científica internacional reduz a dependência dessas redes e diminui barreiras invisíveis impostas por estruturas historicamente masculinas.
Outro ponto relevante é o tempo de maturação dos efeitos. Os impactos positivos não são imediatos. Em geral, levam alguns anos para se materializar, o que os autores associam a processos de absorção de conhecimento, aprendizagem e reorganização da produção científica local. Ainda assim, os resultados se mostram robustos mesmo quando são utilizados métodos estatísticos mais exigentes e quando o impacto é medido com base no uso efetivo das plataformas, e não apenas na adesão formal ao programa.
Do ponto de vista de política pública, o trabalho lança luz sobre uma dimensão frequentemente negligenciada nos debates sobre ciência aberta e acesso à informação. Ao contrário da visão de que se trata apenas de uma agenda técnica ou editorial, o estudo mostra que decisões sobre modelos de acesso, preços de assinaturas e licenciamento científico têm efeitos distributivos claros. Elas influenciam quem consegue produzir ciência, em que condições e com que visibilidade.
Para países de renda média, como o Brasil, onde persistem desigualdades regionais, de gênero e institucionais no sistema de ciência e tecnologia, o recado é direto. Políticas de acesso a bases científicas, bibliotecas digitais e acordos institucionais com editoras internacionais não são apenas instrumentos de eficiência acadêmica. Elas também funcionam como políticas de inclusão, com impacto direto sobre a diversidade do sistema científico.
Ao evidenciar que a ampliação do acesso ao conhecimento ativa o potencial científico de mulheres em contextos menos favorecidos, o estudo reforça a necessidade de tratar ciência aberta como parte da agenda de desenvolvimento, igualdade de gênero e soberania científica. Em um cenário global de pressão por restrições orçamentárias e revisão de modelos de acesso à informação, a pesquisa sugere que limitar o acesso ao conhecimento tende a aprofundar desigualdades já existentes, enquanto ampliá-lo pode redefinir, silenciosamente, quem participa da produção científica global.
Clique na pesquisa: https://capitaldigital.com.br/wp-content/uploads/2026/01/WP-No.-88.pdf







