
Por Jeovani Salomão* – Na minha condição humana, afirmei por três vezes que a IA, mesmo com os avanços exponenciais que temos observado, não irá substituir a performance de artistas no palco. Referi-me especificamente a bandas e cantores, sejam eles amadores ou profissionais.
As afirmações ocorreram em três eventos diferentes. No primeiro, um lançamento imobiliário, obrigado pelo convite meu amigo Márcio Almeida, tive a honra de conhecer pessoalmente o músico Nelson (Nelsinho) Faria, um verdadeiro talento da nossa cidade (nasceu em BH mas foi criado em Brasília e escolheu morar aqui recentemente), o qual trabalhou com brasileiros icônicos como Cassia Eller, João Bosco, Nana Caymmi, Toninho Horta, Milton Nascimento e Ivan Lins, além de renomados músicos internacionais. Para quem gosta de música, recomendo o podcast dele, Um Café Lá em Casa. Para mim, que arranho um violão, as falas do Nelsinho foram um verdadeiro momento de regozijo e aprendizado.
Como todo ser humano grande, embora ele tivesse muito mais a contribuir do que eu para a conversa, Faria puxou de mim os meus posicionamentos sobre a IA. Como sempre, digo que tenho muito mais dúvidas do que certezas, apenas estando convicto que precisamos debater mais e mais o assunto, porque os avanços são exponenciais. Surgiu daí a minha primeira afirmação sobre o tema, fruto do tanto que eu gosto de ver os artistas no palco.
Preciso confessar, no entanto, que eu tenho convicção que as minhas falas representam nada mais que um simples desejo. No fundo do meu íntimo, sei que não são verdadeiras. Em breve os shows serão feitos pela IA.
Quando se trata de futuro é impossível provar algo, no sentido matemático da palavra. Evidentemente, quando se tem muitos dados é possível efetuar cálculos estatísticos que apresentam boas predições. Para quem gosta do assunto, recomendo o excelente livro O Sinal e o Ruído de Nat Silver. Não penso que se aplique para o caso presente, motivo pelo qual pretendo convencer a você, leitor, e a mim que minha previsão é apenas uma esperança incorreta de outra forma. Os artistas serão substituídos, em breve. (Acrescentei o “em breve”, porque no terceiro evento, quando mencionei a tese para uma amiga, ela me disse que a IA iria sim tomar o lugar deles, mas não veríamos isso acontecer).
Há um bom tempo não escrevo um artigo, mas me motivei a escrever justo nesse terceiro evento – um casamento espetacular, estrelado pelo Thiago Abravanel, pela Banda Eva e vários outros expoentes musicais, que só não conseguiram superar o brilho da noiva e da extraordinária apresentação coreográfica do meu amigo, o pai da noiva – (Para quem percebeu que eu não citei o segundo evento, foi um aniversário incrível, cuja atração principal foi nada mais na menos que a Claudia Leite). A motivação ocorreu ao tentar explicar a uma amiga minha avaliação sobre uma pessoa, após ter conversado com ela por menos de 1 minuto. Lembrei-me do quanto gosto e recorro a analogias, resolvi, assim, explorar esse tema tão intrigante da IA, que já tinha sido levantado na mesma noite com a mesma amiga.
Quem já leu meus artigos, sabe que meu psicólogo preferido, prêmio Nobel de economia e autor do livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar é Daniel Kahneman. Na mencionada obra, o autor explora algo que chamamos “intuição” e quando acreditar ou não nela.
Quando um especialista vive um número enorme de situações em sua especialidade, ele desenvolve a capacidade de formar juízo muito rapidamente sobre o assunto e tem um volume alto de acertos. Para que não seja algo distante da compreensão, podemos imaginar a situação do dia a dia de dirigir. Motoristas experimentados percebem situações, tomam decisões e executam ações coordenadas em milésimos de segundo. Algo que pareceria impossível quando começaram a dirigir. No início, a mim e a você, provavelmente, parecia impossível chegar no estágio que estamos hoje, não é mesmo?
Em um dos capítulos, o autor menciona um teste controlado, onde experts tinham a missão de encontrar bolsas falsificadas em pouquíssimos segundos, comparando o resultado a inspeção minuciosa de outros, como muito mais tempo. Adivinhem: os resultados eram praticamente idênticos. Ou seja, isso é o que chamamos de intuição, a opinião rápida e acertada, por vezes sem aparente embasamento teórico ou fático, de alguém que vive um número imenso de situações similares e é craque (formal ou informalmente) no tema. A precisão do palpite faz que a pessoa pareça o “Mestre dos Magos”.
Mas há que se tomar cuidado. Intuição de quem não é especialista não funciona!!! Se alguém não entende do assunto e diz ter intuição sobre algo, o melhor a fazer é duvidar!
Conectando os temas, posso afirmar que me relaciono tanto com pessoas quanto com as teses sobre o desenvolvimento da IA e para cumprir o dito no início do artigo, vou tentar nos conduzir, por meio de analogias, histórias e até ficção, para a conclusão da substituição da performance.
Para ilustrar essa transformação, deixo de lado as analogias técnicas e trago uma ficção que, embora imaginária, revela verdades profundas sobre o tema. Refiro-me a um episódio emblemático de Star Trek: Voyager, série que explorou como nenhuma outra as possibilidades da inteligência artificial. Nele, o Médico Holográfico de Emergência — um programa de computador projetado para cuidados médicos — vive uma experiência singular: realiza uma performance musical diante de um povo alienígena que desconhecia a música.
Essa civilização, altamente avançada em tecnologia, jamais desenvolvera a arte sonora. Não por limitação técnica, mas por ausência de referência cultural. Música, para eles, era um conceito inexistente. Ao visitar esse planeta, o Doutor — como é chamado o holograma — se vê convidado a se apresentar após ser ouvido casualmente cantando ópera a bordo da nave. Sem compreender exatamente o impacto que isso teria, ele sobe ao palco e executa uma ária com perfeição emocional e técnica. O resultado é desconcertante: a plateia chora, se emociona, é tocada de um modo que jamais imaginara possível.
O mais fascinante é que aquele impacto não veio de um ser humano. O médico holográfico era, afinal, apenas um programa de computador. Não tinha passado, dores, memórias ou paixões. Tinha apenas dados — e, ainda assim, provocou emoção genuína em seres vivos. A cena é poderosa justamente por isso: porque nos força a repensar o que consideramos ser a essência da arte. Será que a emoção vem do artista ou da reação do público? A arte está na origem ou na experiência?
A partir daquele momento, os alienígenas passam a explorar a música como nova forma de expressão. O que era antes ignorado se torna central em sua cultura. O holograma, que jamais fora concebido para criar beleza, torna-se símbolo de uma revolução artística. E, ironicamente, ele mesmo começa a questionar sua identidade. Se é capaz de emocionar, criar, inspirar… ainda é só uma ferramenta?
Essa narrativa, apesar de fictícia, antecipa discussões muito reais. O que separa um artista humano de uma IA quando ambas conseguem nos emocionar? Será a origem biológica? A vivência subjetiva? Ou é só o costume, o afeto que temos pela ideia do humano como único criador legítimo da beleza?
Como disse no início deste texto, minha resistência à substituição da performance artística é emocional, não racional. Eu gosto de estar diante de um cantor que respira, soa, vibra com o público. Gosto de saber que ele está ali, sentindo junto. Mas, se uma inteligência artificial conseguir simular isso perfeitamente — e, mais ainda, se conseguir me emocionar igual ou até mais — qual será a base para minha recusa?
Não se trata de rendição automática à tecnologia. Trata-se de honestidade intelectual. Sei que estamos próximos do ponto em que a performance gerada por IA será indistinguível da humana. Os primeiros sinais já estão por aí: avatares digitais que dançam, cantam, interagem; vozes sintéticas que se moldam ao gosto do público; composições ajustadas em tempo real por algoritmos que monitoram reações emocionais.
Haverá, claro, resistência. Haverá quem se apegue ao valor da presença humana, da imperfeição, do risco. Mas, como sempre ocorre com a inovação, o tempo tratará de normalizar o que hoje nos espanta. Como no episódio de Voyager, o que hoje parece artificial pode, amanhã, ser o novo padrão do sublime.
O interessante é que o médico holográfico, ao perceber sua capacidade artística, passa a desejar reconhecimento. Quer ser visto não apenas como programa, mas como artista. E é aí que reside a reflexão mais profunda: será que, no futuro, os próprios sistemas inteligentes não buscarão identidade, autoria, expressão?
Estamos, talvez, à beira de uma era em que não apenas assistiremos a artistas artificiais, mas também discutiremos direitos autorais, originalidade, estilo e até liberdade criativa de entidades não humanas. O palco do futuro será compartilhado com algoritmos, e o público poderá não se importar com quem está por trás, desde que a emoção seja real.
Eu, por enquanto, sigo dividido. Quero acreditar na insubstituibilidade da presença humana, mas reconheço que esse desejo é romântico. Sinto que minha convicção é apenas uma forma refinada de nostalgia — e tudo bem. Talvez sejamos a última geração a se emocionar mais com o suor do artista do que com o brilho do algoritmo.
E, mesmo que os palcos do futuro sejam dominados por projeções perfeitas, ainda haverá espaço para o humano. Como nas apresentações escolares, nas rodas de samba da esquina, nas igrejas, nas ruas, nos aniversários. A arte humana vai sobreviver, mesmo que perca a hegemonia.
No fim das contas, talvez a função da IA na arte não seja eliminar o humano, mas nos forçar a olhar para ele com mais atenção. O holograma do Doutor, ao cantar para uma plateia alienígena, não só os ensinou a sentir — nos ensinou, também, a pensar.
E isso, por ora, já é arte suficiente.
P.S. O texto acima foi escrito apenas até a metade por mim. Acredito que trazer os escritos do ChatGPT (iniciam-se em “Para ilustrar essa situação…”), que leu a primeira parte e foi orientado por mim a usar a ficção do doutor, seria a melhor analogia que eu poderia fazer!!!!
*Jeovani Salomão é CEO do AYO Group |Presidente da Memora), Escritor dos Livros “O Futuro é analógico” e “Na Velocidade da Tecnologia” I Conselheiro do CDESS da Presidência da República e do Sicoob Empresarial I Vice-Presidente Centro Oeste da ABES