
A disputa pela soberania digital na América do Sul ganhou um novo capítulo e, desta vez, o movimento veio do outro lado da fronteira. Enquanto o Brasil ainda tenta transformar sua abundância de energia renovável em vantagem para atrair grandes centros de dados, o Paraguai avançou em um acordo com investidores norte-americanos para instalar infraestrutura de computação de alto desempenho abastecida pela energia de Itaipu.
O anúncio representa mais um golpe na estratégia brasileira de disputar os grandes investimentos em infraestrutura digital. Brasil e Paraguai dividem a energia produzida pela hidrelétrica, mas Assunção está tentando converter diretamente sua parcela do enorme potencial energético de Itaipu em ativo para atrair data centers, justamente uma das indústrias consideradas estratégicas na corrida mundial pela inteligência artificial.
O entendimento foi comemorado pelo governo de Donald Trump e anunciado durante visita ao Paraguai pelo vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau. Ele destacou tanto a importância de Itaipu quanto o tamanho potencial do investimento norte-americano.
“O poder da água é impressionante. O Paraguai e o Brasil aproveitaram a força do imponente rio Paraná na Usina de Itaipu, uma das maravilhas da engenharia mundial”, escreveu Landau ao relatar a visita.
Segundo ele, investidores norte-americanos chegaram a um acordo para construir um centro de dados nas proximidades da usina, aproveitando a disponibilidade de energia hidrelétrica. Landau afirmou que o empreendimento tem potencial para se tornar “o maior investimento privado estrangeiro na história do Paraguai”.
Um dos movimentos concretos envolve a Crusoe, empresa norte-americana especializada em infraestrutura de computação e inteligência artificial, e a Araico, desenvolvedora paraguaia de projetos de energia e infraestrutura. As duas empresas firmaram uma parceria estratégica para desenvolver infraestrutura de computação de alto desempenho abastecida pela energia de Itaipu.
O movimento paraguaio toca diretamente numa discussão que o governo brasileiro tenta enfrentar com a política de atração de data centers. Energia abundante, renovável e relativamente barata tornou-se um dos principais ativos na competição internacional pelos investimentos necessários ao funcionamento dos grandes modelos de inteligência artificial. Nesse mercado, disponibilidade elétrica deixou de ser apenas uma questão energética e passou a ser também instrumento de política industrial e de soberania digital.
É justamente aí que o avanço do Paraguai chama atenção. O país vizinho está usando uma infraestrutura energética construída conjuntamente com o Brasil para atrair capital estrangeiro destinado a uma atividade que Brasília também considera estratégica. Na prática, parte do valor econômico gerado por Itaipu poderá ser transformada em capacidade computacional instalada em território paraguaio.
Isso não significa que o Paraguai esteja utilizando energia pertencente ao Brasil. Cada país possui direitos sobre metade da energia produzida pela usina, conforme o arranjo binacional. A questão política é outra: quem consegue transformar primeiro essa vantagem energética em infraestrutura digital, investimentos, empregos e capacidade de processamento. E o Paraguai parece disposto a acelerar.
O acordo sobre o data center integra uma aproximação mais ampla entre Assunção e Washington. Os compromissos anunciados incluem novos investimentos privados norte-americanos, ampliação da cooperação para segurança das fronteiras e do espaço aéreo paraguaio, apoio às forças de segurança, combate a fluxos financeiros ilícitos e cooperação para utilização civil da energia nuclear.
A presença dos Estados Unidos dá ao movimento uma dimensão que vai além de um empreendimento empresarial. Data centers capazes de suportar computação de alto desempenho e inteligência artificial passaram a integrar a disputa geopolítica pela localização da infraestrutura digital. Energia, chips, capacidade computacional e controle sobre dados tornaram-se componentes de uma mesma corrida tecnológica.
Para o Brasil, o episódio expõe uma contradição. O país possui uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias, participa de uma das maiores hidrelétricas do mundo e criou incentivos específicos para tentar atrair data centers. Mesmo assim, um país vizinho consegue colocar Itaipu no centro de uma negociação internacional para receber justamente esse tipo de investimento.
O problema, portanto, não está apenas em quem produz a energia de Itaipu. Está em quem consegue transformar essa energia em poder econômico e tecnológico.
Se o empreendimento anunciado pelos Estados Unidos avançar na escala prometida, o Paraguai poderá converter sua participação na maior hidrelétrica binacional das Américas em vantagem competitiva na corrida pela infraestrutura da inteligência artificial. E o Brasil terá de explicar por que uma das principais fontes de energia limpa que ajudou a construir está servindo de alavanca para um vizinho avançar mais rapidamente justamente no setor que Brasília diz considerar estratégico para sua soberania digital.







