
Por Thaís Vital*
Nas últimas semanas, notícias e previsões sobre inteligência artificial trouxeram de volta o temor de um futuro sem empregos e até discussões sobre riscos para a humanidade. É compreensível que esse cenário provoque insegurança. Ainda não sabemos a dimensão de todas as mudanças, mas já podemos observar o que acontece no trabalho cotidiano. Em tecnologia, a IA assume parte das tarefas e exige que os profissionais desenvolvam outras capacidades.
Um desenvolvedor, por exemplo, pode pedir a uma ferramenta que produza uma primeira versão de código, isso não elimina seu trabalho. Cabe a ele compreender o problema, verificar se a solução funciona, identificar falhas, realizar testes e avaliar os efeitos daquela escolha sobre o produto e o negócio. Quanto mais rápida se torna a execução, mais importante é saber o que fazer com o resultado.
A pesquisa Developer Survey 2025, do Stack Overflow, ajuda a entender por quê. Entre os desenvolvedores ouvidos, 46% disseram desconfiar da precisão das respostas de ferramentas de IA, enquanto 33% afirmaram confiar nelas. Uma resposta pode parecer convincente e ainda assim estar errada. Por isso, conhecimento técnico e capacidade de verificação continuam indispensáveis.
A IA nos tirou da zona de conforto e isso vale para todas as pessoas independente de sua área de atuação. Hoje, é possível recorrer a ela durante uma reunião, na análise de um problema ou no início de um projeto. Algumas atividades passam a levar menos tempo, mas surgem novas perguntas. A informação está correta? A solução serve para este contexto? Que consequências pode trazer?
O profissional de tecnologia precisa olhar além da tarefa imediata e entender como sua decisão se conecta às necessidades da empresa e das pessoas que usam seus produtos e serviços.
O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das habilidades exigidas no mercado de trabalho mudarão até 2030. Inteligência artificial e dados estão entre as competências cuja importância deve crescer mais rapidamente. O pensamento analítico, por sua vez, permanece como a habilidade considerada essencial pelo maior número de empregadores consultados. Ou seja, aprender a usar novas ferramentas e, principalmente, saber questionar o que elas produzem e como produzem são partes do mesmo desafio.
Esse cenário também muda o que observamos ao contratar profissionais de tecnologia. Plataformas podem apoiar a organização de candidaturas e a triagem de currículos. Na conversa com uma pessoa, procuramos compreender como ela resolve problemas, trabalha com a equipe, assume responsabilidades e reage quando uma resposta pronta não é suficiente. É assim que conseguimos avaliar sua capacidade de contribuir para o negócio.
Quem trabalha com tecnologia não deixa de ser humano porque dispõe de ferramentas mais avançadas. Profissionais aprendem em ritmos diferentes, enfrentam dificuldades e precisam de espaço para questionar uma resposta, admitir um erro e desenvolver novas habilidades. Para Recursos Humanos, compreender essa realidade é tão importante quanto identificar as competências técnicas que a empresa precisa.
Isso não significa ignorar o impacto da IA sobre os empregos. Um estudo de 2025 da Organização Internacional do Trabalho aponta que a exposição de uma ocupação à inteligência artificial não implica, necessariamente, sua eliminação. Em muitos casos, o efeito esperado é a mudança das tarefas realizadas pelos profissionais. Essa distinção é importante para que as empresas avaliem o que precisa mudar em cada função, em vez de presumir que toda atividade automatizada torna uma pessoa dispensável.
No desenvolvimento de software, essa mudança já aparece com clareza. A IA pode escrever parte do código, mas alguém precisa saber se ele resolve o problema certo e se pode ser usado com segurança. O futuro das equipes de tecnologia depende de profissionais capazes de fazer essa avaliação e de empresas dispostas a prepará-los para um trabalho que exige cada vez mais visão de negócio 360º, responsabilidades diversas e um olhar questionador sobre tudo.
*Thaís Vital, CHRO da ASAPTECH.
Fontes originais
- Stack Overflow — Developer Survey 2025, seção sobre inteligência artificial
- Fórum Econômico Mundial — Future of Jobs Report 2025, capítulo sobre habilidades
- Fórum Econômico Mundial — projeção de mudança nas habilidades até 2030
- Organização Internacional do Trabalho — Generative AI and Jobs, estudo de 2025







