Dataprev cresce 77%, lucra R$ 899 milhões e peso do consignado nas receitas chega a 60%

A Dataprev consolidou em seu balanço publicado hoje (16) no Diário Oficial da União, uma mudança estrutural no seu modelo de geração de receitas. Embora permaneça como operadora de sistemas críticos da Previdência Social, mais de 60% do faturamento da empresa está associado a operações ligadas ao crédito consignado, realizadas em parceria com instituições financeiras.

No exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025, a Dataprev registrou receita operacional líquida de R$ 2,498 bilhões, alta em relação aos R$ 1,929 bilhão de 2024. O avanço da receita foi acompanhado por forte expansão do resultado. O lucro líquido do exercício atingiu R$ 899,6 milhões, um crescimento de aproximadamente 77% sobre os R$ 508,2 milhões registrados no ano anterior.

Consignado

Apesar desses números positivos, o dado mais relevante está na composição da receita. As demonstrações indicam que a maior parte do faturamento já está vinculada ao crédito consignado, superando a participação dos contratos tradicionais com órgãos públicos. Isso altera o eixo histórico da companhia.

Na prática, a Dataprev passa a operar como infraestrutura essencial para o mercado de crédito, ao viabilizar o acesso a dados previdenciários utilizados por instituições financeiras. O consignado depende diretamente de informações como margem consignável e elegibilidade de beneficiários, bases que são operadas pela estatal.

“Fogo Amigo”

Isso pode explicar os motivos da empresa estar sofrendo “fogo amigo” dentro do governo ao longo dos últimos meses, em constantes críticas vindas da parte do INSS. Inclusive, o mais recente “tiro” dado pelo órgão ocorreu na última terça-feira (14) no Metrópoles – que se tornou porta-voz do INSS contra a estatal. De acordo com a reportagem, o INSS alega em nota técnica prejuízos de mais de R$ 233 milhões “em razão de incidentes sistêmicos”.

O documento, que não é público, somente foi divulgado no dia seguinte após a queda do presidente do INSS, Gilberto Waller, ocorrida na segunda-feira (13). Foi mais um elemento num processo de constantes críticas do órgão contra a atuação da Dataprev, porém sem nenhuma comprovação técnica contundente, que vem se tornando mais evidente após ter estourado o escândalo do pagamento de contribuições indevidas sem autorização dos aposentados e pensionistas.

Certas ou não, o fato é que essas críticas do INSS contra a empresa não são novas, mas estão se ampliando nos últimos anos, desde que constatado que a empresa deixou de ter como principal fonte de receitas os contratos de serviços assinados com ela. Desde o Governo Bolsonaro, a Dataprev já não estava politicamente subordinada ao Ministério da Previdência, embora tivesse o INSS como um dos seus principais controladores. No ínicio do Governo Lula, quando se esperava que ela voltasse para o controle da pasta da Previdência, a estatal passou a ser vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI).

Em síntese, os números de 2025 mostram uma empresa com crescimento expressivo de receita e lucro, forte geração de caixa, baixa alavancagem e elevada capitalização. Ao mesmo tempo, indicam uma mudança relevante na origem do faturamento, com predominância das receitas associadas ao crédito consignado em relação aos serviços tradicionais de tecnologia prestados ao setor público.

Riscos futuros

A forte concentração de mais de 60% da receita no crédito consignado expõe a Dataprev a um conjunto de riscos objetivos para os próximos anos. Como essa fonte de faturamento depende diretamente de regras do INSS, limites de margem consignável e políticas públicas de crédito, eventuais mudanças regulatórias podem afetar de forma imediata a principal linha de receita da empresa.

Além disso, o próprio desempenho de 2025 – com receita de R$ 2,49 bilhões e lucro de R$ 899,6 milhões – indica que a rentabilidade está fortemente associada a essa atividade específica, o que aumenta o risco de concentração. Soma-se a isso o peso crescente do resultado financeiro, que alcançou R$ 267,9 milhões, tornando o resultado mais sensível a condições de mercado, como juros e volume de crédito.

Em um eventual cenário de retração, a estrutura de custos elevada, com R$ 1,27 bilhão em custos de serviços e R$ 418 milhões em despesas operacionais, tende a pressionar rapidamente as margens, uma vez que esses gastos não se ajustam na mesma velocidade da receita.

Soma-se a esses indicadores econômicos, o risco político a que a empresa está sendo exposta. A empresa no Governo Bolsonaro chegou a entrar para a lista de privatizações. Era óbvio que uma estatal detentora das operações do consignado no governo atrairia a atenção de diversas empresas privadas interessadas no negócio. A privatização só não foi efetivada porque faltou tempo ao Governo Bolsonaro, que não teve um segundo mandato.

Mas mesmo naquele período a empresa chegou a ser alvo, dentro do próprio governo, do interesse do Serpro e da Caixa Econômica Federal em tirar dela o poder de participar da intermediação do consignado com o sistema financeiro nacional. Até uma “emenda jabuti” foi inserida num projeto de lei para abrir a exploração do serviço para os outros entes governamentais. O projeto caiu, para sorte da Dataprev. E olha que naquele momento a estatal só detinha 40% de suas receitas com serviços prestados no consignado. Agora, com 60% das receitas vindas dos bancos privados, tentem imaginar o que ocorrerá com a estatal, se a partir de 2027 um governo “Liberal” assumir o poder?

Desempenho financeiro

O desempenho operacional também mostra ganho relevante. O lucro operacional antes do resultado financeiro somou R$ 700,4 milhões, frente a R$ 544 milhões em 2024, enquanto o lucro operacional total chegou a R$ 968,4 milhões, ante R$ 707,8 milhões no ano anterior. Já o resultado financeiro contribuiu de forma significativa, com saldo positivo de R$ 267,9 milhões, acima dos R$ 163,7 milhões de 2024.

Os custos dos serviços prestados totalizaram R$ 1,278 bilhão, e as despesas operacionais somaram R$ 418,3 milhões, evidenciando que, mesmo com aumento de custos, a expansão da receita sustentou a ampliação das margens.

Do ponto de vista patrimonial, a empresa encerrou 2025 com ativos totais de R$ 3,738 bilhões, crescimento em relação aos R$ 2,964 bilhões de 2024. O patrimônio líquido atingiu R$ 2,806 bilhões, frente a R$ 2,241 bilhões no ano anterior, reforçando a capitalização da estatal. O capital social foi elevado para R$ 1,6 bilhão, ante R$ 1,5 bilhão em 2024, enquanto as reservas de lucros somaram R$ 1,206 bilhão.

A posição de caixa segue robusta. A Dataprev fechou o exercício com R$ 1,936 bilhão em caixa e equivalentes, crescimento em relação aos R$ 1,701 bilhão de 2024, com geração positiva de caixa operacional de R$ 633,8 milhões.

No passivo, o total de obrigações (circulantes e não circulantes) somou R$ 931,7 milhões, com destaque para R$ 213,6 milhões em juros sobre capital próprio e dividendos propostos, indicando forte capacidade de distribuição de resultados. A conferir futuramente nas negociações com sindicatos, intermediadas pela Fenadados.