O passado, o presente e o futuro na mesma pessoa do novo presidente da Telebras

Como a história é dinâmica e prega peças na vida das pessoas. O mesmo homem que ajudou a enterrar a Telebrás no século XX agora é chamado a justificar por que ela precisa existir (e funcionar) no século XXI. A posse hoje de Hermano Albuquerque na presidência da Telebrás foi construída, do começo ao fim, como um elogio à ideia de Estado provedor de conectividade e, por consequência, como uma defesa explícita da relevância estratégica de uma empresa pública no coração da política de telecomunicações. O problema é que o próprio Hermano fez questão de lembrar, no discurso, sua passagem pelos bastidores da reforma do setor na década de 1990, ao citar a época do então ministro Sérgio Motta e a criação do modelo regulatório que abriu caminho para o regime privado e para a privatização do Sistema Telebrás. Ao trazer esse passado para o palco, o novo presidente colocou, ele mesmo, a contradição no centro do debate: como alguém que participou do desenho do setor privatizado agora ocupa o comando da estatal que simbolicamente foi “desmontada” naquele processo?

A tensão apareceu quando Hermano relembrou sua atuação nas comissões e discussões que precederam a instalação da Anatel e a reorganização do mercado, com ênfase no arcabouço que permitiu a expansão dos serviços e o crescimento da internet no país. O registro, no roteiro da posse, poderia soar como credencial técnica e política mas, para quem acompanha a história do setor, a evocação desse período vem colada a um fato incontornável: foi justamente aquele desenho, impulsionado no governo FHC e capitaneado politicamente pelo Ministério das Comunicações de então, que selou a privatização do sistema e rebaixou a antiga Telebrás a um papel residual por anos. O que, agora, soa paradoxal é ver o mesmo personagem se apresentar como defensor da empresa pública, atribuindo a ela uma “missão única” de universalização e um papel central para o governo.

Foi nesse contexto que, questionado diretamente sobre a aparente mudança de posição pois naquela época a Telebrás estava sendo degolada, Hermano respondeu tentando transformar a contradição em linha evolutiva: não seria uma conversão ideológica, mas um ajuste de diagnóstico. Segundo ele, o ponto de continuidade, do passado ao presente, não é a forma de propriedade do setor, mas a convicção de que infraestrutura é condição para desenvolvimento. “Eu sempre acreditei que a gente precisava de infraestrutura para crescer as telecomunicações”, afirmou ao explicar por quê hoje abraça a Telebrás como instrumento do governo.

A justificativa apresentada por Hermano se apoia numa mudança de época: ele argumenta que, nos anos 1990, telecomunicações ainda não ocupavam o papel “preponderante” que têm hoje na entrega de serviços públicos. O que teria mudado, portanto, não é o valor da conectividade, mas a centralidade dela na engrenagem do Estado. “Talvez naquela época telecomunicações não tivesse um papel tão preponderante, tão estratégico como tem hoje”, disse. E foi além, reforçando a tese que ele já havia apresentado no discurso de posse: a de que telecomunicações viraram um “quarto pilar” de governo, ao lado de educação, saúde e segurança. “Eu descobri ao longo da minha vida” – afirmou – que “a gente nunca vai conseguir levar educação de qualidade, segurança pública de qualidade, saúde pública de qualidade, se a gente não tiver uma infraestrutura de telecomunicações, capaz de atender aquele povo mais distante”, explicou.

Na prática, Hermano tenta resolver a contradição deslocando o debate do “privatizar ou estatizar” para “qual seria a missão que o país precisa cumprir agora”. Ele sustenta que a universalização, especialmente em municípios pequenos e áreas remotas, não é um subproduto automático do mercado, mas uma tarefa que exige um ator com mandato público e capacidade de coordenação. Daí a frase que sintetiza a guinada retórica: “Por isso que eu abraço essa missão nesse momento e por isso que eu acho que a missão da Telebrás se tornou tão importante e muito mais importante agora do que era antigamente”. Em outras palavras, ele sugere que, mesmo tendo defendido um modelo pró-mercado e pró-regulação nos anos 1990, o presente impõe uma revalorização do instrumento estatal, porque a conectividade virou infraestrutura crítica para políticas públicas essenciais.

A resposta não apaga o incômodo histórico e nem tenta. Ela reinterpreta a privatização como uma etapa de um ciclo em que o país precisou “fazer crescer” o setor, enquanto o atual momento exigiria garantir capilaridade, resiliência e entrega de serviços em territórios onde a lógica comercial não fecha a conta. É uma narrativa de complementaridade: o mercado como motor de expansão nos centros e a estatal como braço do Estado para universalizar e integrar políticas públicas. O próprio Hermano reforçou essa visão ao defender, na mesma conversa, um “mundo de parcerias” com operadoras, redes neutras e provedores de satélite, afirmando que “não adianta a Telebrás achar que vai conseguir fazer tudo sozinha”.

Ao colocar a universalização como argumento, Hermano também tenta enquadrar sua gestão numa agenda de execução e sustentabilidade: entrega de projetos existentes, modernização de rede, planejamento de novos satélites e monetização de ativos como o data center, sempre com parcerias e com a promessa de que a Telebrás estaria num “momento muito positivo” do ponto de vista financeiro, com mais autonomia para investir.

Mas é justamente aí que a contradição ganha um segundo capítulo: o presidente que se diz produto das reformas pró-mercado agora precisa provar que a Telebrás – um símbolo máximo do que foi a privatização – pode funcionar como empresa pública sustentável, com governança, caixa e relevância social sem virar dependente orçamentária permanente.

No fim, a “contradição” vira a matéria-prima do novo discurso: Hermano tenta se apresentar como alguém que conhece por dentro a lógica de mercado e a engenharia regulatória que moldou o setor e que, por isso mesmo, agora defenderia uma Telebrás mais pragmática, com eficiência, parcerias e foco em resultados, mas orientada por uma missão pública.

É uma aposta arriscada e politicamente carregada: reconciliar, no mesmo personagem, o passado do desenho privatizante e o presente da defesa de uma estatal como instrumento central do Estado digital. A pergunta que fica e, que a própria posse escancarou, é se essa conciliação será apenas narrativa ou se vai se traduzir em entregas que justifiquem, na prática, o novo lugar que Hermano diz enxergar para a Telebrás no século da conectividade.